Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta e interventor cívico, várias vezes galardoado e distinguido, Eduardo Lourenço nasceu a 23 de Maio de 1923. Em "O Labirinto da Saudade", mergulha nas profundezas do imaginário colectivo para decifrar as tensões, mitos e sonhos que moldaram Portugal ao longo dos séculos. Naquele que é considerado um dos mais marcantes ensaios sobre a identidade portuguesa, Eduardo Lourenço convida-nos a atravessar o "labirinto" que ele próprio cartografa: um espaço onde convivem memória, melancolia, projecções de grandeza e inquietações modernas.
Com olhar crítico, sensibilidade literária e rara capacidade de interpretação cultural, Lourenço mostra como a saudade – mais do que sentimento – se tornou a chave simbólica para entender a forma como os Portugueses se pensam e se narram. Provocador, lúcido e profundamente poético, este ensaio permanece actual, oferecendo ao leitor não apenas um retrato da identidade nacional, mas também uma reflexão sobre a condição humana e as imagens que criamos de nós mesmos.
«(…) Nenhum povo pode viver em harmonia consigo mesmo sem uma imagem positiva de si. A Revolução de Abril restituiu ao cidadão português a plenitude dos direitos cívicos comuns às democracias ocidentais, operou uma mudança nas relações de força entre a antiga classe dirigente e possuidora e o povo trabalhador, mas não encontrou ainda aquele ponto de apoio que sem precisar de ter o odioso perfil de um nacionalismo chauvinista, paranóico e irrealista, corresponda ao sentimento de natural fruição da autonomia e da dignidade nacionais.
Neste momento a colectividade nacional não vive Portugal como uma realidade histórica sustentada e animada por um sentimento de confiança e de legítimo orgulho no seu destino particular. A actual imagem de Portugal aos olhos dos Portugueses aparece-lhe de novo, mau grado a insistência e a luta pela dignidade nacional, pela recuperação das suas possibilidades económicas, sociais e culturais, de molde a torná-lo um parceiro internacional à altura do seu longo passado, como eivada de estigmas e carências, cuja recordação pesa na nossa memória colectiva.
De benjamins da esperança revolucionária aceitável para uma Europa em crise lavrada, apenas há quatro anos, aproximamo-nos, se o não estamos já, da bem conhecida situação do uhomem doente da Europa. Na mera ordem política assistimos à espectacular e provocante saída dos túmulos bem calafetados de conhecidos responsáveis de uma Ordem que não pôde subsistir senão pelo esmagamento implacável da classe trabalhadora e da «legalização» da censura e da polícia secreta. Na ordem externa, acentua-se, cada dia que passa, a nossa estrutural dependência de nações ou grupos para quem a Revolução de Abril, mesmo mitigada, não é nem pode ser personna grata. Sob tão pouco exaltante pano de fundo terá chegado a hora de regresso de todos os fantasmas maléficos da nossa História que periodicamente nos visitam? Somos nós incuráveis, paradoxais geradores ou co-geradores de povos e incapazes de construir um telhado duradouro para a nossa própria casa?
Desde o início, a Revolução cometeu uma falta que, esperamo-lo, não lhe seja fatal. Hipnotizada pelo puro combate ideológico - necessário, mas só vivido concretamente pela massa dos cidadãos politizados - a Revolução descurou em excesso o sentimento nacional, deixando à futura Direita, após a cómoda hibernação que lhe ofereceu, a sua exaltada e frenética exploração. É verdade que os valores de «pátria», «patriotismo», «sentimento nacional» pelo seu teor afectivo, de cariz irracional, não costumam ser reivindicados pela Esquerda. É um erro funesto. Nenhuma Revolução triunfou com argumentos meramente ideológicos. Só a conjugação do interesse nacional e do interesse social assegurou o sucesso das Revoluções que triunfaram ou deixaram após elas a sua marca indelével. (…)»
