"Finitude e Culpabilidade"

Finitude e Culpabilidade

«Parménides já tinha observado a relação entre a opinião, o erro e o delírio da nomeação. Ora, as paixões da linguagem não são paixões passivas, por assim dizer; como demonstra a vida política, as falsificações da linguagem são imitações ativas da palavra verdadeira; constituem um mundo "para" (uma paralogia), um mundo centrado na categoria do pseudo; são "imitações" da discussão, da coacção da verdade e da concordância dos interlocutores sobre o mesmo logos. Vemos como este tema da "falsidade" ressoa com o do "desejo", que parecia atribuir o mal ao corpo; o desejo só é mau porque já não é estritamente corpóreo; precisa de ser varrido por um frenesim de excesso; ora, o excesso só alcança o desejo através da "falsidade". O tirano é a prova viva dessa loucura que se apodera do desejo. De facto, para a filosofia, o tirano é mais do que uma figura política; é propriamente metafísico, porque é o símbolo do homem que possui o poder de satisfazer todos os seus desejos. Ele é o mito do desejo ilimitado: ilimitado porque tem ao seu serviço um poder que, por sua vez, não está limitado pela lei. No entanto, o tirano confirma que este corpo de desejo sofre uma espécie de mutação devido à alma injusta que o habita, pois o desejo é uma criação da injustiça, e não o contrário.»

 

“Finitude e Culpabilidade” aborda a culpa e a experiência do mal humano, cuja natureza absurda e opaca, quando se trata de uma descrição essencial, nos obriga a libertar a investigação das amarras da análise fenomenológica. Mas, para além da simples descrição empírica da vontade, esta investigação avança para aquilo a que Paul Ricoeur chama o “mito concreto” da vontade má. Através da leitura de mitos da Queda, do caos, do exílio e da obstinação divina, a investigação conduz ao reconhecimento de uma linguagem mais fundamental: a linguagem da confissão. Esta linguagem “não fala de impureza, pecado ou culpa em termos diretos e próprios, mas em termos indiretos e figurativos”. É uma linguagem simbólica que exige uma nova hermenêutica, uma “simbólica do mal”. O simbolismo do mal prepara, assim, o terreno para a reintrodução do mito no discurso filosófico, que tinha sido interrompido pelo mito. Para o autor, não se trata de pensar “por detrás” do símbolo, mas “a partir dele”. A recuperação deste simbolismo do mal para a reflexão filosófica aponta, em última análise, para uma visão ética do mundo, na qual a humanidade e a sua liberdade constituem o espaço onde o mal se manifesta.