Ignorância

Ilustração

«(…) A ignorância tem muitos amigos e inimigos, é figura proeminente em tudo, desde propaganda de associações comerciais até operações militares e slogans para crianças. Os advogados pensam muito sobre isso, como muitas vezes aparece em litígios de responsabilidade de produtos de consumo e litígios civis, onde a pergunta é frequentemente feita: "Quem sabia o quê e quando?" A ignorância tem muitos substitutos interessantes e sobrepõe-se de várias maneiras ao sigilo, estupidez, apatia, censura, desinformação, fé e esquecimento, todos os quais geram ignorância e distorcem a ciência. A ignorância esconde-se nas sombras da filosofia e é mal vista na sociologia, mas também se reflecte na retórica popular: não é uma desculpa, é o que não te pode magoar, é a felicidade. A ignorância tem uma história e geografia política e sexual complexa, e faz outras coisas estranhas e fascinantes que vale a pena explorar.
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Há muitas maneiras de conceber a ignorância: como tragédia, como crime, como provocação, como estratégia, como incentivo, como excesso ou privação, como deficiência, como mecanismo de defesa ou obstrução, como oportunidade, como fiador da neutralidade judicial, como mal pernicioso, como inocência maravilhosa, como iniquidade ou alívio, como melhor defesa dos fracos ou desculpa comum dos poderosos, etc. Certamente há tantas maneiras de conceber a ignorância quanto o conhecimento, e a sociologia é muito intrincada em ambos os casos. Existem muitos tipos de ignorância e muitas razões para revelá-la, desfazê-la, deplorá-la ou procurá-la.
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E quando a ignorância gera confiança, arrogância ou timidez? Charles Darwin escreveu certa vez que "a ignorância gera mais confiança do que o conhecimento: são aqueles que sabem pouco, e não aqueles que sabem mais, que afirmam tão positivamente que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência" (Darwin, 1981. pág. 3). Darwin infere que o conhecimento leva a uma espécie de humildade produtiva, mas com que frequência é isso verdade? O seu ponto não é o socrático "quanto mais você sabe, mais você percebe o quão pouco você sabe", mas quanto mais você sabe, mais você percebe que a ciência pode avançar e superar a ignorância. George Gaylord Simpson toma um rumo diferente, afirmando que a nossa capacidade de ignorância é fundamental para o que significa ser humano: "O homem é, entre muitas outras coisas, o animal errado, o animal estúpido. Certamente, outras espécies têm ideias muito mais limitadas sobre o mundo, mas as ideias que elas têm, têm muito menos probabilidade de estar erradas e nunca são estúpidas. Os gatos brancos não denigrem os negros, e os cães não pedem a Baal, Jeová ou outros deuses semitas que façam milagres para eles” (Simpson, 1964, p. VIII). Aparentemente, ser humano é ser ignorante.
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A agnotologia pode ser um desafio à arrogância, se houver modéstia para compreender quão profundamente ignorantes somos. Pense nas muitas maneiras pelas quais ela é gerada: pela ingestão de chumbo ou assistindo à televisão, pela fadiga ou medo ou isolamento ou pobreza ou qualquer uma das milhares de outras experiências que prejudicam a vida humana. Pense na ignorância gerada por falhas corporais, ou por falhas no financiamento da educação, ou pelo livre acesso a informações falsas, ou por práticas e políticas que aumentam o sigilo, a prevaricação ou a compartimentação. As pessoas deduzem coisas muito diferentes de diferentes tipos de incógnitas e, sem dúvida, continuarão a misturar suspeitas com razões admiráveis para deixá-las florescer ou desaparecer.»

in "Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância" do historiador Robert N. Proctor

Agnotologia refere-se à construção social da ignorância e à área que a investiga, ou ao estudo das manobras políticas e culturais praticadas por pessoas e grupos poderosos, que se beneficiam da ignorância social por meio da manipulação de informações. Há, pelo menos, três tipos de ignorância a serem estudados: a ignorância como um estado primitivo a ser preenchido por conhecimento, a ignorância como construção passiva e a ignorância como construção ativa.

Os dois últimos tipos referem-se, respectivamente, ao que é deixado de lado durante o processo de uma investigação científica por razões diversas (restrições metodológicas, por exemplo), e a estratégias deliberadas de criação de ignorância.

Tais estratégias podem ser virtuosas nos casos em que não saber de algo é, reconhecidamente, justificado por determinados valores, evitando, em particular, pesquisas a partir de métodos inapropriados, tais como as que reforçam estereótipos de grupos marginalizados ou as que apresentam resultados perigosos.

Mais comummente, porém, as estratégias deliberadas de criação de ignorância têm o objetivo de enganar e confundir o público em geral. Semelhantes artifícios foram extensivamente ilustrados no livro em seis casos: o do tabaco, o da estratégia de defesa dos EUA, o da chuva ácida, o do buraco na camada de ozónio, o do aquecimento global, bem como o caso “Rachel Carson” explicitados no livro Merchants of Doubts de Naomi Oreskes e Erik Conway (2010).

Manipular a verdade, pode variar conforme o contexto, onde a mentira se origina das fontes ditas como aceitáveis, porém baseados em evidências quando os resultados científicos são ignorados por quem detêm o poder. A ignorância espalha-se quando muitas pessoas não entendem um conceito ou facto científico, pela disseminação de informações controversas, culminando numa sociedade analfabeta e susceptível às táticas usadas por determinados grupos, com o objetivo de confundir e censurar a verdade em detrimento dos seus interesses.

A ideia de que "quanto menos se sabe, melhor se vive" existe há séculos e provavelmente sobreviveu porque oferece algo muito sedutor: a promessa de descanso mental. Esta crença não é uma verdade universal sobre a natureza humana. Sociedades distintas compreenderam como a ignorância funciona muitas vezes como uma ferramenta política e cultural.

Existem pelo menos duas grandes tradições que abordam esta questão. A primeira, intimamente ligada ao Iluminismo, considerava a ignorância como a origem da superstição, do autoritarismo e do atraso. A segunda, mais antiga e silenciosa, defendia a ignorância como uma fonte potencial de felicidade, imaginação ou mesmo virtude.

O filósofo Michel de Montaigne sugeriu que a curiosidade excessiva poderia produzir mais sofrimento do que benefícios. Mais tarde, o escritor e botânico Jacques-Henri Bernardin de Saint-Pierre chegou a afirmar que a ignorância estimulava a imaginação. Até a feminista revolucionária Olympe de Gouges defendia que os primeiros humanos eram felizes precisamente por desconhecerem grande parte do mundo.

A ideia parece boa, mas o problema é que historicamente também serviu para manter relações de poder. O cardeal Armand Jean du Plessis de Richelieu considerava perigoso educar demasiado o campesinato. Uma população bem informada poderia começar a questionar o governo e a Igreja. Manter certos limites sobre o conhecimento das pessoas ajudava a preservar a ordem política.

Algo semelhante ocorreu durante séculos com as mulheres, que eram desencorajadas de estudar política, línguas ou ciências sob a ideia de que demasiada curiosidade era imprópria ou prejudicial. O Arcebispo François Fénelon alertou contra o que chamou de “curiosidade indiscreta e insaciável” nas raparigas, defendendo uma educação limitada que reforçasse a dependência e a obediência.

Mas, pense bem. Quando surge o desejo de se desligar de tudo e viver numa bolha de informação, será uma escolha livre ou a repetição de uma lógica que historicamente beneficiou quem detém o poder?

Se a ignorância nem sempre é falta de informação, e por vezes é um produto cuidadosamente construído, também se reconhece que a sobrecarga de informação contemporânea alterou radicalmente a nossa relação com o conhecimento. Nunca antes tanta informação esteve disponível e, paradoxalmente, isso aumentou a sensação de não saber o suficiente. Vivemos a ler notícias, a ouvir opiniões, a analisar estatísticas e a acumular estímulos a todo o momento, e perante este excesso, ignorar certas coisas pode tornar-se uma estratégia de sobrevivência emocional.

Alguns especialistas em gestão chegaram a falar de “ignorância criativa”: a capacidade de excluir informação irrelevante para pensar com mais clareza ou inovar sem ser paralisado pelo medo. Paralelamente, várias tradições religiosas e filosóficas defenderam o “não saber” como uma forma de humildade intelectual.

O Cardeal Nicolau de Cusa escreveu sobre a “ignorância aprendida”, uma ideia segundo a qual reconhecer os limites da compreensão humana era uma forma superior de sabedoria. Era algo como aceitar que existem dimensões da realidade impossíveis de compreender completamente. Uma ideia semelhante surge em “A Nuvem do Desconhecimento”, onde se recomendava abandonar temporariamente o pensamento racional para se aproximar do divino.

Nestes casos, o desconhecimento não funcionava como um conforto intelectual, mas como uma disciplina. Assim, por um lado, a ignorância pode operar como um mecanismo de controlo e manipulação. Por outro, a sobrecarga de informação acabou por produzir exaustão, ansiedade e uma necessidade constante de filtrar os estímulos.

Talvez o problema não seja escolher entre saber tudo ou não saber nada, mas sim aprender a lidar com a ignorância. Distinguir o que vale a pena saber, o que pode ser ignorado sem consequências graves e o que é essencial compreender para evitar ser manipulado.