Recordo-me do dia 1 de Maio de 1975 (ou será 1976?). A minha mãe decidiu que era dia de pegar em baldes e escovas e ir lavar a fonte do Largo. Não me recordo exactamente do ano. Recordo-me de entrar no trabalho às 9 da manhã do dia 31 de Dezembro, sair às 6h30 da manhã do dia 1 de Janeiro, para ir a casa tomar duche e trocar de roupa, regressar às 8h00 e voltar a sair por volta das 3h00 da manhã do dia 2 de Janeiro. Quando recebi o ordenado do final do mês, deram-me 5 contos a mais por ser mulher e a mais nova no serviço. Os meus colegas receberam mais. Não perguntei quanto mais.
Apesar de não recordar com exactidão o ano destes “acontecimentos”, estas duas memórias regressam frequentemente quando me falam de “trabalho”.
Não sei se alguma vez considerei um trabalho como sacrifício, ou se apenas considerei o sacrifício normal. É tudo uma questão de significado. O significado que atribuímos às palavras. Porque o sinónimo de “vai mas é trabalhar” é “vai mas é sacrificar-te”. Como se o sacrifício de outrem, que odiamos por não se sacrificar, diminuísse o sacrifício próprio.
Bom dia do trabalho, do sacrifício, do descanso, da memória, ou do entendimento. Entende quem entende quem assim pode entender.
Ensinaram-nos que o trabalho dignifica, mas nem todos os empregos são criados nas mesmas condições, nem produzem as mesmas vidas. Numa sociedade onde a riqueza é concentrada e distribuída de forma profundamente desigual, o trabalho deixa de ser um caminho para a dignidade e passa a ser um meio de sobrevivência.
Há aqueles que trabalham incansavelmente e, ainda assim, não têm acesso a tempo, bem-estar e segurança. Há corpos que sustentam a vida cultivando, cuidando e produzindo, mas não partilham da riqueza que geram. Esta é a contradição estrutural: aqueles que mais sustentam o mundo são os que menos recebem.
Não é acaso. É a continuação de um modelo que historicamente extraiu valor dos territórios e dos corpos para o concentrar noutro lugar. A expropriação não terminou: transformou-se em formas modernas de trabalho precário, em longas jornadas, em vidas sem tempo para viver.
Trabalhar sem dignidade é uma consequência da forma como a sociedade está organizada. Portanto, vida longa aos trabalhadores e trabalhadoras que sustentam a vida, que resistem, que se preocupam e que lutam para viver com dignidade.
