Nascida a 30 de Maio, Marina Garcés é filósofa, ensaísta e professora, sendo uma das principais impulsionadoras do coletivo de pensamento crítico "Espai en Blanc". Em "Novo Iluminismo Radical" propõe um olhar crítico e uma atitude combativa face à credulidade do nosso tempo. Perante os discursos catastrofistas e solucionistas que dominam as narrativas e uniformizam as linguagens, Marina Garcés interpela-nos: "E se nos atrevêssemos a pensar, novamente, na relação entre saber e emancipação?"
Ao defender a capacidade de nos auto educarmos, relança a confiança na natureza humana para afirmar a sua liberdade e construir, em conjunto, um mundo mais habitável e mais justo. Uma aposta crítica na emancipação, que precisa de ser novamente explorada.
«O mundo contemporâneo é radicalmente anti‑iluminista. Se, em 1784, Kant anunciava que as sociedades europeias de então estavam em tempos iluministas, hoje podemos dizer que estamos, em todo o planeta, em tempos de anti‑iluminismo. Ele usava o termo com um sentido dinâmico: o iluminismo não era um estado, era uma tarefa. Nós também: o anti‑iluminismo não é um estado, é uma guerra.
As faces desta guerra anti‑iluminista são muitas e multiplicam‑se todos os dias. No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora. Podemos chamar‑lhe populismo, mas esse é um termo confuso. Do que se trata é de um novo autoritarismo que permeia toda a sociedade. No plano cultural, triunfam as identidades defensivas e ofensivas. A cristandade branca e ocidental refugia‑se nos seus valores, ao mesmo tempo que se desencadeia uma revolta antiocidental em muitas partes do mundo, mesmo por parte do pensamento crítico ocidental, que rejeita a sua própria genealogia. Em todos os domínios, o que triunfa é um fascínio pelo pré‑moderno: tudo o que havia «antes» era melhor. Como explicou Zygmunt Bauman no seu livro póstumo, é o refúgio do que ele chama «retrotopias», ou seja, utopias que se projectam num passado idealizado: da vida tribal à exaltação de qualquer forma de vida pré‑colonial, pelo simples facto de o ser. A educação, o saber e a ciência mergulham, também hoje, num desprestígio, do qual só conseguirão salvar‑se se forem capazes de apresentar soluções concretas para a sociedade: soluções laborais, soluções técnicas, soluções económicas. O solucionismo é a justificação de um saber que perdeu o apanágio de nos tornar melhores, como pessoas e como sociedade. Já não acreditamos nisso e, por essa razão, pedimos soluções e nada mais que soluções. Já não equacionamos tornarmo‑nos melhores, mas tão‑só obter mais ou menos privilégios num tempo que não leva a lado nenhum, porque renunciou a direccionar‑se para um futuro melhor.
(…) Hoje, mais do que menoridade, o que temos é uma sociedade adulta, ou antes, senil, que está disposta cinicamente a acreditar, ou a mostrar que acredita, no que mais lhe convém em cada momento. Os meios de comunicação chamam a isto pós‑verdade. Mas este é também um termo «retrotópico», porque faz parecer que a verdade é o que deixámos para trás, num passado melhor. Não há mais nem menos verdade no passado. O que há são diversas formas de combater a credulidade que nos oprime em cada época. Precisamos de encontrar o nosso combate particular contra o sistema de credulidade do nosso tempo. Esta impotência actual tem um nome: analfabetismo ilustrado. Sabemos tudo, mas não podemos nada. Com todos os conhecimentos da humanidade à nossa disposição, só conseguimos travar ou acelerar a nossa queda no abismo.
O iluminismo radical foi um combate contra a credulidade, a partir da confiança na natureza humana para se emancipar e se tornar melhor. A sua arma: a crítica. Não podemos confundir esta aposta radicalmente crítica com o projecto de modernização que, com a expansão do capitalismo através do colonialismo, dominou o mundo nos três últimos séculos. Há uma distância entre o projecto civilizacional de dominação e a aposta crítica na emancipação que precisa de ser novamente explorada.
(…) Qualquer saber mobiliza novas relações de poder é uma obviedade. Mas é também o argumento reaccionário com o qual se condenou qualquer tentativa radical de transformar o mundo e de impulsionar o desejo, pessoal e colectivo, de emancipação. Assim, chegámos a aceitar como um dogma a irreversibilidade da catástrofe. Por isso, para além da modernidade que desenhou um futuro para todos, e da pós‑modernidade que celebrou um presente inesgotável para cada um, a nossa época é também a da condição póstuma: sobrevivemos, uns contra os outros, num tempo que só diminui.
E se nos atrevêssemos a pensar, novamente, na relação entre saber e emancipação? Parecem palavras gastas e ingénuas. Mas é este justamente o efeito desmobilizador que o poder persegue hoje: ridicularizar a capacidade de nos auto‑educarmos para construirmos, em conjunto, um mundo mais habitável e mais justo. Propõem‑nos todo o tipo de gadgets para a salvação: tecnologia e discursos a la carte. Líderes e bandeiras. Siglas. Bombas. Embarcam‑nos em projectos de inteligência delegada, nos quais, finalmente, poderemos ser tão estúpidos como os humanos demonstraram ser, porque o mundo e os seus dirigentes serão inteligentes por nós. Um mundo smart para habitantes irremediavelmente idiotas.
Já não estamos mergulhados na dialéctica entre o desencantamento e o desencanto que encheu de sombras a cultura dos séculos XIX e XX. Estamos à porta de uma rendição. A rendição do género humano relativamente à tarefa de aprender e de se auto‑educar para viver mais dignamente. Diante desta rendição, proponho pensarmos num novo iluminismo radical. Retomarmos o combate contra a credulidade e afirmarmos a liberdade e a dignidade da experiência humana na sua capacidade para aprender acerca de si mesma. A dada altura, este combate foi revolucionário. Agora é necessário. Então, a sua luz projectou‑se como um universal expansivo e prometedor, invasivo e dominador. Agora, na era planetária, podemos aprender a conjugar um universal recíproco e acolhedor. (…)»
