Até que ponto é legítimo obedecer? É em torno desta questão central que Frédéric Gros constrói um contundente ensaio sobre a política contemporânea e sobre a nossa relação quotidiana com os desmandos que imperam na vida pública: as muitas contradições do sistema democrático; os discursos de ódio; a linguagem do mundo político; as desigualdades que proliferam a largos passos, mescladas a discursos de integração, igualdade e liberdade.
O autor afirma que aceitamos o inaceitável e que existe já um panorama tão grave que justificaria o que ele apelida de “dissidência cívica”. São três as situações intoleráveis, que, segundo o autor, aceitamos de modo mais ou menos dócil.
A primeira diz respeito ao aprofundamento das injustiças sociais e das desigualdades de fortuna. “O duplo processo de enriquecimento dos ricos e de empobrecimento dos pobres provoca o colapso progressivo da classe média”, a qual foi, segundo o autor, responsável por impor certos limites à extrema pobreza e à extrema riqueza. Juntamente a esse colapso, ideias reguladoras que serviam de base à compreensão do mundo democrático, utilidade geral ou bem público, também acabam por desbotar, por perder o vigor e o brilho que tinham ao menos como pano de fundo, como ideal de coordenação do espaço comum.
“Falar de injustiça", acrescenta Gros, "tornou-se obsoleto. Nós estamos na era da indecência”. A fria linguagem do formalismo matemático entra em cena para justificar as ações governamentais, tendo como base sobretudo saldos e débitos, juros e promessas de receita. As pessoas também desbotam diante das estatísticas, já não estão mais no horizonte palpável das preocupações dos gestores públicos.
O segundo inaceitável é a degradação progressiva do meio ambiente. O uso abusivo dos recursos é estimulado por um modo de vida onde o consumo se apresenta como uma espécie de soma – para lembrar o Admirável mundo novo, de Huxley, também citado pelo autor. O império da técnica é outro elemento a impulsionar essa busca frenética de consumo que tem como contrapartida uma potência latente de desumanização. “Se por séculos tentámos proteger-nos da Natureza por meio da técnica, doravante é a Natureza que precisa ser protegida da técnica”.
A terceira situação inaceitável diz respeito ao processo contemporâneo de criação de riquezas, que aponta para o carácter difuso, complexo e proteiforme do capitalismo. O capitalismo contemporâneo encontrou uma forma ainda mais desumanizadora que a exploração do trabalho para produzir riqueza, a saber, através do endividamento e da especulação, gerando como subproduto uma desvalorização gradativa do próprio trabalho.
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