"O Crime"

O Crime do Padre Amaro

Quando li «O Crime do Padre Amaro» de Eça de Queiroz, no início dos anos 1980, esta não era uma obra “aconselhada” a adolescentes. Tinha ouvido proferir o título, por diversas vezes, sempre envolto numa nuvem de receio. Era uma espécie de segredo, de pecado, o que só aguçou mais a minha curiosidade. De alguma forma, nem sei qual, consegui que me fosse comprado. Li-o de uma só vez e, confesso, foi uma “desilusão”. Aqui não havia um “segredo revelado”. Esta era a “história real” tantas vezes sussurrada pelos adultos. Esta era uma história repetida.

Padre Amaro, por exemplo, que não se entregou à vida religiosa em função de uma vocação genuína, praticamente não se modifica, apesar de todos os dilemas. Os padres e demais membros do clero são representados como brutos, glutões e obesos, indolentes com os ricos e intolerantes com os pobres, sem vocação e pouco afeitos a respeitar os valores, dogmas e preceitos da Igreja. As beatas, sempre prontas para cercear qualquer comportamento considerado desviante.

Em suma... hipocrisia, esperança, corrupção, degeneração, tentação, ambição, perversão e poder, esta é a lógica de ressignificação das contradições que perpassam todas as camadas sociais. Eça de Queiroz significou artisticamente uma realidade contraditória em si e, nesse contexto, «O Crime do Padre Amaro» é uma obra profundamente enraizada no seu tempo e, simultaneamente, eivada de elementos atemporais que, tal como nos mitos, não cessam de se repetir em infinitas variações.

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