«(...)Pode-se dizer que um poster ou um livro ilustrado, a legenda ou outras formas de material escrito podem ajudar a entender o que a imagem significa. Porém, eu quero lembrá-lo sobre um dispositivo retórico chamado exemplo, no qual Aristóteles gastou algumas páginas interessantes. Para convencer alguém sobre um dado assunto, o mais convincente é uma prova por indução. Na indução eu forneço vários casos e, então, eu infiro o que provavelmente dará margem a uma lei geral.
Suponha que eu queira demonstrar que cães são amigáveis e adoram seus donos. Eu forneço vários casos nos quais um cão provou ser amigo solícito e eu sugiro que deve haver uma lei geral pela qual todo animal pertencente à espécie canina é amigável.
Suponha que eu queira persuadi-lo de que os cães são perigosos. Posso fazer isso fornecendo um exemplo: "Uma vez, um cão matou o seu dono ..." Como você facilmente entende, um único caso nada prova, mas se o exemplo é chocante, eu posso de repente sugerir que cães podem mesmo ser não amigáveis e, uma vez que você esteja convencido que pode ser assim, posso indevidamente extrapolar uma lei a partir de um único caso e concluir: "cães não são confiáveis". Usando a retórica do exemplo eu desloquei o foco de um cão para todos os cães.
Se você tem uma mente crítica você pode constatar que eu manipulei a expressão verbal (um cão era mau) para transformá-la em outra (todos os cães são maus), que não significa a mesma coisa. Mas, se o exemplo é visual ao invés de verbal, a reação crítica é muito mais difícil. Se eu lhe mostro a imagem pungente de um cão mordendo seu dono, é muito difícil discriminar entre uma declaração particular e uma geral. É fácil tomar um cão como representativo de sua espécie. As imagens possuem, por assim dizer, um tipo de poder Platônico: elas transformam idéias individuais em idéias gerais.
Então, por educação e por comunicação puramente visual, é mais fácil implementar estratégias persuasivas que reduzam nosso poder crítico. Se eu leio em um jornal que um dado homem disse "queremos o senhor X para presidente" eu estou ciente que era a opinião de um dado homem. Porém, se eu vejo na TV um homem dizendo entusiasticamente "queremos o sr. X para presidente", é mais fácil tomar a vontade daquele indivíduo como o exemplo da vontade geral.
As vezes penso que as nossas sociedades, em breve, serão divididas (ou já o estão) em duas classes de cidadãos: os que vêem TV, que recebem imagens pré-fabricadas e, portanto, definições pré-fabricadas do mundo, sem qualquer poder para escolher criticamente o tipo de informação que recebe, e os que sabem como trabalhar com o computador, que serão capazes de escolher e elaborar informação. Isso reestabelecerá a divisão cultural que existia no tempo de Claude Frollo, entre aqueles que eram capazes de ler manuscritos e, portanto, trabalhar criticamente com assuntos religiosos, científicos ou filosóficos, e aqueles que eram educados apenas pelas imagens da catedral, escolhidas e produzidas por seus mestres, os poucos alfabetizados.(...)»
in "Da Internet a Gutenberg", um ensaio de Umberto Eco (5 de Janeiro de 1932 - 19 de Fevereiro de 2016), originalmente apresentado como uma palestra na Italian Academy for Advanced Studies in America em Novembro de 1996, que analisa a evolução da leitura e da escrita, argumentando que as novas tecnologias (Internet) não tornam obsoletos os meios anteriores (livro). Eco compara a revolução da internet com a invenção da imprensa por Gutenberg, traçando um percurso desde o papiro até aos suportes digitais. Diferencia a TV (apresentação visual) do computador (baseado em palavras e páginas), chamando este último de um novo tipo de livro. Analisa como os textos eletrónicos dão a ilusão de liberdade ao leitor, mas que, na verdade, se baseiam em sequências pré-estabelecidas. Argumenta que o livro físico continuará a ser o melhor suporte para a leitura aprofundada, ao contrário da leitura fragmentada na internet. Eco defende que o computador é um "livro ideal" baseado em texto, mas alerta para o excesso de informação e a necessidade de filtrar o conhecimento.
