Máscaras há muitas

 

Máscaras

A primeira máscara de Carnaval data de 30.000 anos A.C., e tem origem religiosa. Ainda hoje, em África, por exemplo, conserva o sentido primordial: o homem que usa a máscara de crocodilo é o espírito do crocodilo - a máscara manifesta a divindade e transmite ao portador todo o seu poder. Estes aspectos foram esquecidos noutras culturas.

No Antigo Egipto, o povo acreditava que a colocação de uma máscara na face dos mortos ajudava na passagem para a vida eterna. Na China, as máscaras eram usadas para afastar os maus espíritos, enquanto que os Gregos usavam as máscaras nas suas cerimónias religiosas.

O uso de máscara em várias manifestações carnavalescas de Inverno liga-se a rituais pagãos europeus e ancestrais, de passagem para a Primavera. As populações que viviam da pastorícia e agricultura celebravam a crença de que um ritual de fartura e comportamento extravagante promoveria ano de abundância.

Aqui, a máscara serve a transgressão e extravagância nesse processo de pensamento mágico. É um instrumento de mediação entre a comunidade e a natureza. Como elemento mitológico, a máscara preconiza a renovação da natureza e a fertilidade.

Feitas de pele de coelho, couro ou renda, muitas eram também esculpidas em madeira. Algumas cobertas de elementos vegetais e animais, aludindo à fusão do homem com o elemento selvagem. As celebrações de inverno e rituais associados, em que se utilizam máscaras, constituem uma herança de quando as populações conheciam e celebravam os “ritmos” da natureza.

Há muitas máscaras, tantas quantas as ocasiões e os destinos. Nem sequer se restringem aos grupos humanos, entre os animais também é possível falar delas. A camuflagem não foi inventada pelos soldados. É uma máscara também, que usam para se ocultarem do inimigo. Esse é um valor constante da máscara no domínio profano - a ocultação e o poder de iludir. No caso dos animais, exemplo bem conhecido é o do camaleão: a cor da pele muda consoante o lugar onde está.

A máscara está longe de ser característica só do Carnaval, libertando-nos por uns dias dos pensamentos amargos, das rotinas quotidianas. Nas saturnais (festas realizadas na Roma antiga em homenagem a Saturno), com que mantém alguma relação, tudo era permitido: durante as festas, invertiam-se os valores, os senhores serviam os criados e os criados injuriavam os senhores - outra forma de libertação. E o mesmo acontecia nas festas da Epifania (festa religiosa cristã), em que também se usavam máscaras, e se parodiavam os membros do clero e a própria liturgia.

O mais antigo documento, sobre o uso das máscaras em Veneza data de 2 de Maio de 1268. Um outro, datado de 22 de Fevereiro de 1339, proibia os mascarados de vaguearem pela noite nas ruas da cidade. Todavia, o seu uso era permitido durante todo o carnaval, excepto nas festas religiosas e ao entrar nas igrejas. Durante todas as manifestações importantes, como as festas republicanas, era consentido o uso dos trajes Venezianos que compunham o uso das máscaras.

O Carnaval de Veneza quase não tem mímica, e, apesar do andamento, é estático e silencioso como as fotografias. Esta rigidez não vem só da máscara inteira, a cobrir a cara, decorre sobretudo da pose: os grupos param para serem fotografados na rua e aguardam, em cenários escolhidos, que a imagem os leve para o estrangeiro, como apelo ao turismo.

No entanto, as máscaras mais famosas de Veneza eram independentes do Carnaval. Saídas nocturnas, de damas e cavalheiros, para encontros galantes nas gôndolas ou nos palacetes dos canais, ou mesmo só para um jantar elegante, exigiam a discrição e requinte da meia máscara, de cetim ou de veludo.