A luz, associada à ideia de verdade, realça o real que vive dela e reflecte-a em tons diferentes. A realidade não é só aquela que é mostrada pela luz e que se interioriza como verdade. A verdade tem um peso maior e o seu espectro abrange quer a sombra, quer a luz. A sombra decorre da luz. É devido à existência da luz que a sombra existe, na maioria das vezes encarada no plural: as sombras. Porque de um ponto de luz, podem ser, aparentemente, vislumbradas várias sombras.
Na “Alegoria da Caverna”, Platão afirma que a caverna corresponde ao mundo visível e o sol ao fogo onde a sua luz se projecta. A constatação do filósofo é uma alegoria referente à natureza humana e, mais do que isso, da sua atitude perante a cultura e a incultura, da luz contra as trevas e contra as sombras e que, muito embora se trate de uma luz em segunda-mão, não invalida que se assuma como luz principal. A caverna é o mundo em que vivemos. As sombras são o que percebemos. A verdade é a luz exterior do sol, onde está a realidade.
Dante referia-se ao paraíso como sendo detentor de uma luz tão intensa que não se podia enfrentar, e que “anula a surpresa, termina com a possibilidade da Poesia, da Liberdade, do Amor e da Felicidade”. Assim, a conceptualização da luz, enquanto parte integrante da vida, da sociedade, envereda pela lógica da sombra que, “sem destruir os segredos, a Luz os pode revelar e servir-nos de guia”. Em cada possibilidade interpretativa do mundo, é aberto um espaço contra a morte, no entanto isso faz com que se desguarneça “outra gruta escura”. Sublinhando, no entanto, que “nenhuma noite vencerá inteiramente a Luz, nenhum dia vencerá inteiramente a Escuridão”, pelo que “talvez apenas uma luz abstracta (…) nos possa trazer de novo ao real” (Pinharanda, 2007, s.p.).
Segundo Santo Agostinho, a verdade está no interior do homem. “Não queiras sair para fora; é no interior do homem que habita a verdade”. E há verdades constantes, inalteráveis, para sempre. Dois mais dois serão sempre quatro.
Nietzsche olhava para a verdade como um ponto de vista, encarando-a como ficção. Ele não define nem aceita a sua definição de verdade, porque não se pode alcançar uma certeza sobre a definição do oposto da mentira. Daí o texto do filósofo intitulado “Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo” (1888).
Para René Descartes a certeza é o critério da verdade, sendo que quem está de acordo com uma determinada expressão, compromete-se com a verdade que nela está inscrita. Umberto Eco preferia as mentiras.
No “Ensaio sobre a cegueira” (1999), José Saramago utiliza inúmeras metáforas para explicar como é que as pessoas vão cegando no mundo contemporâneo, numa alegoria sobre um horror que corrói a convivência humana, colocando em contraste os deveres de cidadania (como o sentimento de responsabilidade social) e a demissão do sujeito em relação a esses deveres, ao sublinhar as atitudes de alheamento e de passividade. O livro é sobre a luz e a verdade, não obstante escolha o seu contrário para a evidenciar. Na epígrafe do romance, a partir do “Livro dos Conselhos”, Saramago escolheu a frase: “se podes olhar, vê; se podes ver, repara". A visão não é apenas o acto de ver, abrange uma descodificação interpretativa assente no reparar, e na ideia de ‘olhar’, que apela à memória, contextualizando a experiência através das suas ‘ferramentas’ de detecção, identificação, ligação e compreensão das diversas situações que, por comparação, incidem no comportamento.
O conceito de luz vai muito além do fenómeno físico e do qual depende a vida (sem luz não seria possível haver vida na Terra). O nosso conhecimento do mundo, da realidade, também depende da luz e do que ela nos faz perceber. É por isso que a luz, desde que o homem tomou consciência de si (e, por consequência, dos outros), sempre assumiu a forma de metáfora para o entendimento da razão, da verdade e do bem. E do seu contrário, pela via das sombras que decorrem da luz. Razão e emoção estão numa dicotomia que colocam em perspectiva lógicas assentes na ciência pura, objectivas, portanto, mas também na poesia, na problematização, por conseguinte, necessariamente subjectivas.
Peter L. Berger e Thomas Luckmann salientarem a existência de múltiplas realidades, em que uma se apresenta como sendo a realidade por excelência: a da vida quotidiana, apelidada de realidade predominante e, por isso, admitida como sendo “a realidade". Muito embora essa constatação faça sentido, nomeadamente para se poder circunscrever o olhar para um objectivo concreto, o certo é que não existe nenhuma realidade objectiva. A atestá-lo, bastará ter em atenção a noção de que a linguagem simbólica vai para além da própria realidade e, por isso mesmo, se constitui como um dos seus principais componentes, o que lhe dá, por conseguinte, um recorte subjectivo.
O mundo dos média é um mundo construído, uma porção ínfima da realidade, devido a factores mais operacionais, como o tempo e o espaço (os média não são elásticos e lá não cabe toda a realidade), e outros de razão financeira e ideológica (que decorrem dos donos das empresas), e política (na sequência da linha editorial vigente). O facto é que os média, que deveriam difundir a verdade, difundem a ‘sua’ verdade.
