«O conceito empírico de liberdade autoriza-nos a dizer: “eu sou livre, se posso fazer aquilo que quero”; mas essas palavras “o que quero” pressupõem já a existência da liberdade moral. Ora, é precisamente a liberdade de querer que agora está em questão, sendo necessário, consequentemente, que o problema se apresente da seguinte forma: “podes também querer o que tu queres?”»
Em "Liberdade da Vontade", Artur Schopenhauer procurava responder à questão formulada a propósito do concurso aberto pela Academia Norueguesa: "O livre arbítrio pode ser demonstrado pelo testemunho da consciência?". O ensaio inicia-se com a questão: Que se entende por liberdade?
Segundo Schopenhauer, "o conceito de liberdade, considerado exactamente, é negativo", visto que o concebemos apenas como ausência de obstáculos ou impedimentos. É possível considerar três géneros de liberdade: física, intelectual e moral – que correspondem respectivamente às três diferentes maneiras sob as quais se pode apresentar algum impedimento. Deste modo, em função da inexistência de obstáculos à ação física, afirma-se a presença de uma potência de agir (liberdade física); correlacionada, em função da inexistência de obstáculos à ação voluntária, afirma-se a presença da liberdade intelectual.
Schopenhauer considera que os dois primeiros géneros estão intimamente ligados, sendo em geral concebidos em termos de uma "potência de agir", todavia, é precisamente o terceiro género de liberdade, a liberdade moral, que é tema da questão proposta. Segundo Schopenhauer, há uma confusão – que precisa ser desfeita – entre o conceito de liberdade física, produto da experiência empírica, e a concepção de liberdade moral.
Na medida em que "ser livre para agir" significa apenas ser "livre para agir conforme a vontade", a concepção de liberdade física acaba por pressupor a existência da liberdade da vontade. Cabe questionar: "o querer, ele mesmo, é livre?" Ou ainda: "podes querer?". Por outras palavras, seria possível formular: escolhemos "livremente" o que queremos, ou apenas queremos?
Schopenhauer enfatiza que "a palavra livre, significa o que não é necessário sob nenhum aspecto, ou seja, o que é independente de toda razão suficiente”. A possibilidade de liberdade da vontade humana condiciona-se à ausência de toda a necessidade. Nesse caso, o querer não seria determinado por nada, seja uma razão ou uma causa, as volições surgiriam aleatoriamente, sem qualquer solicitação ou vínculo causal – ter-se-ia, portanto, uma liberdade de indiferença. Essa hipótese, em última análise, implica o facto de que um homem, posicionado em determinadas circunstâncias, "pode, em virtude dessa liberdade de indiferença, agir de duas maneiras diametralmente opostas".
Que se entende por consciência? Segundo Schopenhauer, a consciência é "a percepção (directa e imediata) do 'eu', por oposição a percepção aos objectos exteriores, que são objectos da faculdade denominada percepção exterior". O filósofo da vontade destaca em seguida que o "eu" se revela imediatamente a cada um de nós como um "eu volitivo". Considerando que a vontade constitui o conteúdo da consciência, a dúvida que persiste é em que medida os objectos exteriores determinam os actos de vontade.
Schopenhauer destaca que a volição sempre se produz sob a influência de um objecto da percepção exterior, um motivo, que pode ser compreendido como causa estimulante e como matéria da volição. Neste sentido, a questão que se apresenta é: "uma vez que o objecto está presente ao nosso entendimento, a volição deve ou não se produzir necessariamente, ainda mais, se em presença de um mesmo motivo, poder-se-ia produzir uma volição diferente, ou mesmo diametralmente oposta?”.
A tal pergunta, a consciência imediata responderia precipitadamente: "Eu posso fazer o que quero, logo, sou livre!". Todavia, Schopenhauer ressalta como o testemunho da consciência, na verdade, acaba por pressupor a liberdade da vontade, visto que, neste sentido, "ser livre" corresponde a "agir conforme a vontade". Isso deve-se ao facto de que o testemunho da consciência se refere sempre aos actos, trata, portanto, de algo que surge à posteriori, enquanto a questão da liberdade da vontade se refere a algo anterior, que está aqui ingenuamente pressuposto.
Um dos aspectos da ilusão que envolve a "liberdade de indiferença" é a confusão entre desejo e vontade: "pode-se, de facto, desejar duas coisas opostas, mas só se pode querer uma: e por qual das duas a vontade se decidiu, é algo que a consciência só sabe a posteriori, pela realização do acto". A representação de um desejo consiste apenas numa possibilidade projectada pela consciência, e, assim procedendo, o intelecto conjectura diferentes opções para a ação. Entretanto, tal actividade é inteiramente distinta do querer, que determina objectivamente a realização do acto. Deste modo, ações opostas podem ser representadas, mas ainda sob a condição de se efectivarem apenas "quando se queira" – o que, naturalmente, não permite que se possa querer indiferentemente coisas opostas.
Deste modo, a resposta à questão formulada pela Academia Dinamarquesa, que Schopenhauer procura argumentar ao longo de todo o ensaio, pode ser anunciada da seguinte forma: "Tu podes, é verdade, fazer o que queres: mas em cada momento determinado da tua existência, tu só podes querer precisamente uma coisa e apenas uma, à exclusão de qualquer outra".
