«O que lá vai, lá vai’, ouve-se frequentemente dizer. E, não raras vezes, acrescenta-se: ‘Eu não olho para trás, mas sempre para a frente’, o que pretende soar a heroísmo mas, bem analisado, não tem consistência. Não há dia e nem sequer hora em que não olhemos para trás. Basta termos memória. Por tudo e por nada associamos palavras, sítios, objectos, comidas, leituras, caras, acontecimentos, com alguma coisa ouvida, vista, comida, lida, vivida. E mesmo os heróis de desígnios relevantes e que afirmam olhar sempre para a frente por, desse modo, desejarem corrigir os males do nosso mundo, evocam, de certeza, tal como toda a gente, os eventos bons e maus que lhes ficaram para trás.»
"À Flor do Tempo" recolhe crónicas de Ilse Losa (20 de Março de 1913 - 6 de Janeiro de 2006), dispersas por jornais e revistas ao longo de quase meio século e configura, para lá da diversidade dos temas, das circunstâncias e dos estados de alma, uma das facetas mais vincadas da actividade da escritora, tão atenta às gentes e às realidades do Porto, como entregue à evocação da terra natal, a Alemanha. Meia centena de textos onde confluem as experiências vividas no mundo real com o projecto latente da sua transformação no voo ficcional.
