«(…) Lei é lei, dizia eu, seja justa ou não; nenhuma democracia, nenhuma república seria possível se apenas obedecêssemos às leis que aprovamos. Sim. Mas nenhuma seria aceitável se fosse necessário, por obediência, renunciar à justiça ou tolerar o intolerável. Questão de grau, que não se pode resolver de uma vez por todas. É o domínio da casuística, exactamente, no bom sentido do termo. Às vezes é necessário entrar na luta clandestina, às vezes obedecer ou desobedecer tranquilamente... O desejável é, evidentemente, que leis e justiça caminhem no mesmo sentido, e é nisso que cada um, enquanto cidadão, tem a obrigação moral de se empenhar. A justiça não pertence a ninguém, a nenhum campo, a nenhum partido; todos são moralmente obrigados a defendê-la. Estou a exprimir-me mal. Os partidos não têm moral. A justiça deve ser preservada não pelos partidos, mas pelos indivíduos que os compõem ou lhes resistem. A justiça só existe e só é um valor, inclusive, quando há justos para defendê-la.
Mas o que é um justo? Aí está o mais difícil, talvez. Aquele que respeita a legalidade? Não, pois ela pode ser injusta. Aquele que respeita a lei moral? É o que podemos ler em Kant, que, no entanto, apenas recua o problema: o que é a lei moral? Conheci vários justos que não pretendiam conhecê-la, ou mesmo que negavam totalmente a sua existência.
(…)
O que é um justo? É alguém que põe a sua força ao serviço do direito, e dos direitos, e que, decretando nele a igualdade de todo o homem com todo o outro, apesar das desigualdades de facto ou de talentos, que são inúmeras, instaura uma ordem que não existe, mas sem a qual nenhuma ordem jamais nos poderia satisfazer. O mundo resiste, e o homem. Portanto, é preciso resistir-lhes – e resistir antes de tudo à injustiça que cada um traz em si mesmo, que é si mesmo. É por isso que o combate pela justiça não terá fim. Esse Reino, pelo menos, nos é proibido, ou antes já estamos nele só quando nos esforçamos para alcançá-lo. Felizes os famintos de justiça, que nunca serão saciados! (…)»
Em "Pequeno Tratado das Grandes Virtudes", André Comte-Sponville propõe-nos uma viagem por dezoito virtudes, consciente de que pouco delas se fala nos dias correntes, embora não tenham perdido actualidade. Escolhi um excerto da "Justiça". A Justiça não no contexto da Lei, porque a Lei pode ser injusta. A ideia de Justiça não existe como um estado de facto. Para a Justiça ser praticada, devemos resistir ao interesse pessoal, bem como o interesse colectivo. Para explicar melhor isso, Comte-Sponville cita Simone Weil: “a virtude da Justiça consiste em se comportar exactamente como se houvesse igualdade quando se é mais forte numa relação desigual”.
