"Eurico, o Presbítero"

Eurico, o Presbítero

A obra mais conhecida de Alexandre Herculano (28 de Março de 1810 -  13 de Setembro de 1877), foi editado em volume em 1844, um ano depois de ter saído em excertos em “O Panorama” e na Revista Universal Lisbonense. Faz Eurico parte do Monásticon, conjunto formado por esta obra e por “O Monge de Cister”, em que fundamentalmente Alexandre Herculano trata o problema do celibato monástico, integrando-o na problemática das duas formas de sagrado – a santidade e a maldição.

O herói deste poema épico em prosa tem sido apresentado como o alter ego de Alexandre Herculano e nele de facto o autor consubstanciou grande parte das suas convicções, anseios, frustrações e mitos. Eurico (Herculano) é o homem permanentemente dividido entre o barro terreno e o absoluto divino, é o ser aspirante ao sagrado, mas dilacerado interiormente pela renúncia, embora voluntária. Perfeitamente integrado no ideário romântico, o autor situa a obra no ambiente medieval, transpondo para a sua época os conflitos sociais e políticos descritos, que encontram eco na luta interior das personagens, dimensionando-as assim ao nível intemporal.

A solidão moral do celibato de Eurico poderá ser lida como o sacerdócio leigo de Herculano, que renunciou ao amor de juventude em prol duma dedicação total à causa social, política e literária. Em Hermengarda reconhecemos o dramatismo duma Ofélia de Shakespeare, figura paradigmática ressuscitada e largamente utilizada pelos românticos como a da “penitente do amor”. A construção da obra e a linguagem utilizada deixam-nos bem clara a intenção, aliás confessada pelo autor, de lhe conferir um sopro épico que a aproxime, pelo conteúdo e pela forma, da canção de gesta. Pela oposição sistemática entre sublime e grotesco, sagrado e profano, pelo tom melodramático, pela redescoberta da sociedade medieval, Eurico é exemplo flagrante da inserção inequívoca de Alexandre Herculano no movimento romântico, ao qual deu valioso subsídio como poeta, historiador e romanista.