"Heliopolis"

 

Heliopolis

Originalmente publicado em 1949, "Heliopolis" é o primeiro grande romance escrito por Ernst Jünger (29 de Março de 1895 - 17 de Fevereiro de 1998) após a Segunda Guerra Mundial. Jünger foi um escritor e filósofo alemão e militar condecorado cujo pensamento político, de início nacionalista e autoritário, se transformou com o correr do século XX numa luta contra todos os totalitarismos. "Heliopolis" é uma distopia que, à luz dos últimos avanços tecnológicos e do regresso do populismo e da xenofobia, é extraordinariamente visionária. A obra desenvolve o conflito institucional entre o poder popular do escritório central, que representa um modo de vida totalmente regido pela técnica, e o palácio, que simboliza a tradição, a perfeição do ser através da disciplina e da cultura. Incapaz de aderir a nenhum dos lados, o personagem principal rebela-se contra o automatismo e busca o último bastião de resistência no atemporal.


«(…) Lucius pegou no pequeno instrumento (…). Como se estivesse a citar um texto de propaganda, mostrou a Budur Peri os quadrantes luminosos, com as suas figuras e os contactos: “(…) Transmite informações a qualquer momento sobre (…) condições climáticas e previsões meteorológicas. Cumpre as funções de documento de identidade (…). Indica a situação da conta financeira do titular […]. Calcula imediatamente o custo e vende bilhetes para qualquer viagem (…) está ligado a teatros, concertos, bolsas de valores, lotarias, assembleias, eleições e conferências e pode ser utilizado como jornal e agência de informação, como biblioteca e como dicionário. Garante a ligação com qualquer outro fonóforo ao redor do mundo.”

(…)

Dificilmente havia um adulto em toda a Heliopolis que não o tivesse. As caixas achatadas eram carregadas no bolso. (…) Nesse quadro, o fonóforo tornou-se o meio ideal para a democracia planetária, um instrumento que ligava cada um dos indivíduos de forma invisível. (…) Aperfeiçoados, desapareceram todas as dificuldades técnicas inerentes ao voto e à consulta popular. A vontade era conhecida, o voto das grandes massas, e a sua contagem fazia-se em fracções de segundo, quase com a velocidade do pensamento. (…) No entanto, desta forma, apenas algumas pessoas tinham o direito de fazer perguntas. Todos podiam ouvir e dar respostas, mas os tópicos em discussão eram determinados por um punhado de indivíduos. Assim, a igualdade passiva coexistia com enormes diferenças de função. As velhas ficções repetiram-se, ao estilo dos autómatos (…)»