«Por conseguinte, é crucial distinguir entre poder e ‘violência’: o poder é psicológico, uma força moral que faz com que as pessoas queiram obedecer, enquanto a violência impõe a obediência através da coerção física. Aqueles que usam a violência podem impor a sua vontade temporariamente, mas o seu controlo é sempre ténue, porque quando a violência termina, ou a sua ameaça diminui, há ainda menos incentivos para obedecer às autoridades. O controlo através da violência exige vigilância constante. Pouca violência é ineficaz; muita violência gera rebelião. A violência pode destruir o poder antigo, mas nunca poderá criar a autoridade que legitima o novo. A violência é, por isso, o alicerce mais frágil sobre o qual se pode construir um governo. A violência é a arma preferida dos impotentes: aqueles com pouco poder tentam frequentemente controlar ou influenciar os outros usando a violência. A violência raramente cria poder. Pelo contrário, os grupos ou indivíduos que usam a violência descobrem frequentemente que as suas ações reduzem o pouco poder que possuem. Os grupos que se opõem aos governos tentam muitas vezes compensar a sua percepção de falta de poder usando a violência. Tal violência apenas reforça o poder do Estado. Um terrorista que faz explodir um edifício ou assassina um político dá ao governo a desculpa de que necessita para reprimir as liberdades individuais e expandir a sua esfera de controlo. Quando um governo recorre à violência, é porque sente que o seu poder lhe está a escapar por entre os dedos. Os governos que agem através da violência são fracos. Os ditadores sempre precisaram de recorrer ao terror contra as suas próprias populações para compensar a falta de poder. A violência prolongada leva a uma diminuição do poder, o que, por sua vez, exige mais violência.»
Nascido a 21 de Março de 1949, Slavoj Žižek, o filósofo esloveno contemporâneo influenciado por Lacan, Marx e Hegel, é conhecido pela crítica radical à ideologia, ao capitalismo e à cultura pop. A celebração da violência é uma das principais vertentes na sua obra. Argumenta que a ideologia funciona como uma fantasia cínica que molda a realidade, onde os indivíduos agem como se não soubessem que estão a ser manipulados, propondo a análise do "Real" por trás das aparências.
Em "Viver no Fim dos Tempos", Žižek argumenta que o capitalismo global está a chegar à sua crise final e aponta os quatro cavaleiros deste futuro apocalipse: a crise ecológica mundial; os desequilíbrios do sistema económico; a revolução biogenética; e as divisões sociais explosivas. Examina as formas culturais e políticas destas etapas da evasão ideológica e do protesto político, do obscurantismo da New Age ao violento fundamentalismo religioso. Conclui com um convite ao retorno à crítica marxista da economia política.
