Uma data instituída em 1982 pelo Comité Internacional da Dança da UNESCO, para assinalar o nascimento de Jean-Georges Noverre (1727-1810), considerado um dos criadores da dança moderna.
O Dia Internacional da Dança, que celebra esta arte, uma das mais antigas do mundo, mostra a sua universalidade imune a barreiras políticas, culturais ou étnicas, sendo também uma ocasião propícia para chamar a atenção do público em geral para a importância da dança e uma oportunidade para procurar incentivar o apoio por parte das entidades governamentais à dança. Crystal Pite (Canadá), coreógrafa aclamada internacionalmente, é a autora da Mensagem do Dia Internacional da Dança 2026.
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| Crystal Pite Credit Rolex by Anoush Abrar |
«Os humanos movem-se – os nossos braços estendem-se, os nossos joelhos cedem, as nossas cabeças inclinam-se, os nossos peitos contraem-se, as nossas costas arqueiam-se, saltamos, encolhemos os ombros, cerramos os punhos, levantamo-nos e empurramo-nos. Isto é linguagem tanto quanto a ação. É isto que o corpo tem a dizer sobre a necessidade, a derrota, a coragem, o desespero, o desejo, a alegria, a ambivalência, frustração, amor. Estas imagens brilham com significado na mente porque sentimos estas coisas tão puramente no corpo – fomos movidos.
Somos bailarinos, todos nós. A vida move-nos; a vida faz-nos dançar. Efémeros como a respiração, concretos como os ossos, uma dança é feita de nós. Esculpimos o espaço. Escrevemos com os nossos corpos numa linguagem sem palavras que é profundamente compreendida. Agraciamos o espaço dentro e à nossa volta quando dançamos.
Tal como a vida, a dança cria-se e destrói-se a cada instante. Tal como o amor, transcende a razão.
Gosto de pensar no corpo como um lugar; um espaço onde o ser é acolhido e moldado. Quando dançamos, estamos profundamente envolvidos em estar ali.
Estou a escrever isto no início de 2026, quando parece não haver fim para a opressão, a convulsão e o sofrimento no nosso mundo. Diariamente, ao testemunharmos o horror do que os seres humanos são capazes de fazer uns aos outros e a máquina de poder que financia e alimenta a violência indizível contra as pessoas e o planeta, a dança parece uma resposta fácil e inútil. É difícil imaginar o que pode fazer um artista da dança num mundo que precisa tanto de mudanças radicais e cura.
E, no entanto, a arte, tal como a esperança, é uma forma de amor. Desafiante geradora perante a profanação, a arte é um solvente para a mente calcificada e um bálsamo para a curar. A arte é um receptáculo que nos acolhe enquanto lidamos com questões – juntos – de uma forma diferente das notícias, diferente dos documentários e da educação, diferente da opinião e das redes sociais, diferente do ativismo e do protesto, mas não incompatível.
Através da criatividade, acumulamos resistência e esperança através de pequenos actos de coragem, curiosidade, bondade e colaboração. Na dança e na criação coreográfica, encontramos a prova de que a humanidade é mais do que o nosso mais recente fracasso global devastador.
Mas a dança não precisa de justificação, nem de explicação. Ela é feita de nós, mas não nos deve nada. Ela só precisa habitar um corpo disposto. Desse lugar, ela pode traduzir o inefável; atuando como intermediária entre nós e o desconhecido.
Somos tocados por estes fugazes vestígios de beleza no momento presente. E, ao incorporarmos tanto a dança como o seu desaparecimento, somos recordados da nossa impermanência. Ao mesmo tempo, se estivermos atentos, a dança dar-nos-á vislumbres ocasionais da alma.»
