«Ficavam-me os pobres, submissos e aterrados, os que pressentiam o desfecho como u m castigo misterioso, telúrico, de que não se podia fugir, e me procuravam quase sempre apenas para ouvir uma palavra de conforto que em toda parte lhes era negada, uma mentira mais, e pareciam rogar desculpas do seu próprio sofrimento. Esperavam de mim, cúmplice da doença, da morte ou das ilusões, não as drogas em que já nem acreditavam, mas uma espécie ambígua de solidariedade que os fizesse sentir apoiados até por quem estivesse no lado do executor no minuto final; ou mesmo a solidariedade do carrasco e da vítima quando o mundo se fecha sobre os dois. Mentiras era o que se pediam, sempre mentiras, logros mendigados de mão estendida.»
Uma história exemplar de amor e de morte, que nos mostra como somos forçados a reprimir impulsos vorazes. Médico e escritor português, cujas obras retratam a condição humana e a realidade social com sensibilidade, Fernando Namora (15 de Abril de 1919 - 31 de Janeiro de 1989), foi uma figura proeminente da Geração de 1940, também conhecida como "Geração deãos". A Geração de 1940 insere-se na terceira fase do Modernismo português, sucedendo à Geração de Orpheu (1915) e ao Presencismo (1927-1940), representando uma viragem para o realismo social após o conflito existencialista da fase anterior. Esta geração foi crucial para a transição para uma literatura mais crítica e consciente das questões sociais e da necessidade de mudança em Portugal.
