"Evolução"

 


Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

in "Sonetos"

 

Um soneto filosófico que descreve a jornada da consciência através da evolução biológica e espiritual, desde a matéria inanimada até à condição humana, culminando na aspiração à liberdade. Com uma estrutura clássica, o eu lírico reflete sobre o seu passado como rocha, planta e fera, destacando a angústia existencial e a busca metafísica, típicas da obra do autor.

Poeta, filósofo e político, tendo pertencido à denominada "Geração de 70" - um movimento académico de Coimbra que veio revolucionar várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura - que incluiu Eça de Queirós, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Teófilo de Braga, Guerra Junqueiro, entre muitos outros, Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842, em Ponta Delgada, nos Açores.