“Haverá uma beleza que nos salve?”
«Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, "mais vale burro vivo do que sábio morto". Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.»
Fugida da rua para o silêncio da casa mágica, dos reflexos dos vidros nos enfeites de estuque, do espelho que devolve a cara sem enigmas, da hera que devolve Deus, da lembrança do amor de cães enforcados, dos gatos, fugida da rua, Adília Lopes conta histórias de abracadabra e histórias de caracacá. Ou uma grande criança mal amada através dela. Confidências de rima rápida, às vezes curta, em livro de capa bonita, capa que dura.
Fazer da poesia o deve e o haver da vida é “o jogo perigoso” da autora desde que publicou o primeiro livro em 1985, do próprio bolso. Maria José de Oliveira nasceu a 20 de Abril de 1960, em Lisboa. Estudou Física e Românicas. Foi como Adília Lopes que começou a publicar uma escrita pessoal e controversa em forma de poesia.
