O olhar da poetisa

 

O Olhar Diagonal das Coisas

"Retornos"

E a gelosia fecho: o sol não há
que o apaguei em asas de água a arder
nem ícaro nem tu
fui eu que o apaguei

os versos podem agora romper os diques,
podem agora repetir-se em sons,
podem agora lúcido batuque dentro da
noite são dentro da noite
e nem tu nem

Ícaro nem nada:
sou eu que fecho a gelosia
o sol não há
e permito-me o texto como rio, as palavras
fluidas como rio

Mas a chave perdi-
-a

Na poesia de Ana Luísa Amaral (5 de Abril de 1956 - 5 de Agosto de 2022), a noite é muitas vezes um tempo aberto a múltiplas visitações – memórias, imagens, fantasias, entre a verdade e a imaginação."O Olhar Diagonal das Coisas" reúne os 17 livros de poesia, trinta anos em verso inaugurados por Minha Senhora de Quê (1990), até ao Mundo (2021), de uma das mais notáveis poetisas portuguesas.