Um livro que fornece uma análise profunda das ameaças enfrentadas pelas democracias, especificamente pelos regimes totalitários. O filósofo, escritor e jornalista francês, Jean-François Revel (19 de Janeiro de 1924 - 30 de Abril de 2006) defendia que as democracias são muitas vezes os seus piores inimigos, sendo demasiado tolerantes e indecisas, o que pode levar à sua queda. No livro, discute ainda como as democracias podem ser manipuladas pelos regimes totalitários através da propaganda e da desinformação.
«(…) A democracia tende a ignorar, até mesmo a negar, as ameaças à sua existência porque detesta fazer o que é necessário para as combater. Só desperta quando o perigo se torna mortal, iminente, evidente. Por esta altura, ou lhe resta muito pouco tempo para se salvar, ou o preço da sobrevivência já se tornou extremamente elevado.
Para além do seu inimigo externo (antigamente nazi, agora comunista), cuja energia intelectual e poder económico são sobretudo destrutivos, a democracia enfrenta um inimigo interno cujo direito a existir está escrito na própria lei.
O totalitarismo liquida os seus inimigos internos ou esmaga a oposição assim que esta surge; utiliza métodos que são simples e infalíveis porque são antidemocráticos. Mas a democracia só consegue defender-se internamente de forma muito débil; o seu inimigo interno tem vida fácil porque explora o direito de discordar que é inerente à democracia. O seu objectivo de destruir a própria democracia, de procurar activamente um monopólio absoluto do poder, está astutamente escondido atrás do direito legítimo do cidadão de se opor e criticar o sistema. Paradoxalmente, a democracia oferece àqueles que procuram aboli-la uma oportunidade única de trabalhar contra ela legalmente. Podem até receber um apoio quase aberto do inimigo externo sem que isso seja visto como uma violação realmente grave do contrato social. A fronteira é vaga, a transição é fácil entre o estatuto de um adversário leal que exerce um privilégio incorporado nas instituições democráticas e o de um adversário que subverte essas instituições. Para o totalitarismo, um adversário é, por definição, subversivo; a democracia trata os subversivos como meros opositores por medo de trair os seus princípios.
O que temos naquilo que é convencionalmente chamado de sociedade ocidental é uma situação confusa, na qual aqueles que procuram destruir a democracia parecem estar a lutar por objectivos legítimos, enquanto os defensores da democracia são retratados como reaccionários repressivos. A identificação dos adversários internos e externos da democracia com as forças do progresso, da legitimidade e até da paz desacredita e paralisa os esforços das pessoas que apenas tentam preservar as suas instituições.
Já sitiadas por esta combinação de forças hostis e lógica negativa, as democracias são também assediadas por acusações geradoras de culpa e intimidação como nunca nenhum outro sistema político teve de tolerar...(…)»
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