A fábula, pequena narrativa que devemos a Esopo, ainda dos tempos da Grécia Antiga, e mais tarde a Jean de La Fontaine, que já no século XVII lhe destinou uma popularidade verdadeiramente universal, ilustra comportamentos humanos que se revelam mais simples se forem protagonizados por personagens animais.
"A Cigarra e a Formiga", talvez uma das mais conhecidas, sofreu releituras ao longo do tempo sendo inclusive utilizada na propaganda política. Como não? A moral sobre a importância e o valor do trabalho, que lhe foi atribuída noutros tempos, é boa para culpabilizar quem não o valoriza e, essencialmente, para polarizar a sociedade em “nós” e “eles”.
Esopo conta a história de uma cigarra que canta durante o Verão, enquanto as formigas trabalharam para acumular provisões no seu formigueiro. No Inverno, desamparada, a cigarra faminta pede-lhes um pouco dos grãos que punham a secar; interrogada sobre o que fizera durante todo o Verão, responde que não tivera tempo para juntar comida pois "cantara melodiosamente", ao que as formigas respondem que se cantara no Verão, que dançasse no Inverno.
O escritor brasileiro Monteiro Lobato recontou a fábula, no contexto do "Sítio do Picapau Amarelo".
«Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro.
Bateu – tique, tique, tique…
Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
– Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
– Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu…
A formiga olhou-a de alto a baixo.
– E o que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.
– Eu cantava, bem sabe…
– Ah! … exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
– Isso mesmo, era eu…
– Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho.
Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.»
Moral da História: “Os artistas são as cigarras da humanidade.”
Monteiro Lobato, em “Fábulas”. São Paulo: Brasiliense, 1995.
Felizmente as releituras continuam e a moral da história da fábula “A Cigarra e a Formiga” tem sido reformulada. Aos poucos, com avanços e retrocessos, a humanidade em nós vai reconhecendo a importância tanto do bem-estar animal como do ser humano.
