"Ideias e Crenças"

Ideias e Crenças

«Quando tentamos determinar o que constitui as ideias de um homem ou de uma época, confundimos frequentemente duas coisas radicalmente diferentes: as suas crenças e os seus pensamentos ou "opiniões". Em rigor, apenas estes últimos deveriam ser chamados de "ideias".

As crenças constituem o alicerce das nossas vidas, o terreno sobre o qual tudo se desenrola. Porque nos apresentam o que para nós é a própria realidade. Todo o nosso comportamento, mesmo a nossa conduta intelectual, depende do sistema das nossas crenças autênticas. Nelas, "vivemos, movemo-nos e existimos". Por essa razão, geralmente não temos consciência delas; não pensamos nelas, mas operam latentemente, como implicações de tudo o que fazemos ou pensamos expressamente. Quando acreditamos verdadeiramente em algo, não temos uma "ideia" desse algo, mas simplesmente "contamos com isso".

Em contraste, as ideias, isto é, os pensamentos que temos sobre as coisas, sejam elas originais ou recebidas, não possuem o valor da realidade nas nossas vidas. Agem nela precisamente como nossos pensamentos e apenas como tais. Isto significa que toda a nossa "vida intelectual" é secundária à nossa vida real ou autêntica e representa apenas uma dimensão virtual ou imaginária da mesma. Poderá perguntar o que significa, então, a verdade das ideias, das teorias. Eu respondo: a verdade ou falsidade de uma ideia é uma questão de "política interna" dentro do mundo imaginário das nossas ideias. Uma ideia é verdadeira quando corresponde à ideia que temos da realidade. Mas a nossa ideia de realidade não é a nossa realidade. A nossa realidade consiste em tudo o que de facto temos à nossa disposição na vida. Ora, não temos a mínima ideia da maior parte das coisas que temos de facto à nossa disposição, e se as tivermos — através de um esforço especial de autorreflexão — isso é irrelevante porque não é realidade para nós enquanto ideia, mas, pelo contrário, na medida em que não é meramente uma ideia, mas uma crença subintelectual.»

 

Lançado originalmente em 1940, este livro do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (9 de Maio de 1883 - 18 de Outubro de 1955) analisa principalmente as definições, distinções, semelhanças e relações entre os conceitos de crença e ideia. Analisa a forma como construímos as nossas ideias e como herdamos as dos nossos antepassados ​​sob a forma de crenças, quais as suas funções e como se relacionam com a realidade. Para Ortega, as ideias e as crenças são aquilo que "passa pela mente de uma pessoa", toda a actividade mental que ela identifica como tal e distingue da realidade imediata que enfrenta. Como são essencialmente idênticas, as ideias e as crenças distinguem-se apenas pela relação que uma pessoa estabelece com elas.

Segundo a teoria metafísica clássica, as ideias eram a essência imutável da realidade. Todas as coisas boas, por exemplo, partilhavam algo em comum: possuíam uma essência geral pela qual eram definidas como boas e que subsistia para além delas. Se pudéssemos encontrar a definição de bondade, veríamos qual era o fundamento universal de todas as coisas ditas boas. Ortega rompe radicalmente com esta concepção idealista da realidade, segundo a qual as ideias são o fundamento da realidade, e não o contrário. 


«Analise o leitor qualquer um dos seus comportamentos, mesmo os aparentemente mais simples. O leitor está em casa e, por uma razão ou por outra, decide sair à rua. O que há em todo este comportamento que tem realmente o carácter de ser premeditado, mesmo entendendo esta palavra no seu sentido mais amplo, ou seja, como uma consciência clara e presente de algo? O leitor estava consciente dos seus motivos, da decisão tomada e da execução dos movimentos com que caminhou, abriu a porta e desceu as escadas. Tudo isto no cenário mais favorável. Ora, mesmo neste caso, e por mais que procure na sua consciência, não encontrará qualquer pensamento que indique a existência de uma rua. O leitor não questionou em momento algum se ela existe ou não. Por quê? Não se pode negar que, para decidir sair à rua, é de certa importância que a rua exista. Aliás, é a coisa mais importante de todas, o pré-requisito para tudo o resto. Contudo, o leitor não questionou essa questão importantíssima; não a considerou, nem para negar, nem para afirmar, nem para duvidar. Significa isto que a existência ou inexistência da rua não influenciou o seu comportamento? Obviamente que não. A prova seria se, ao chegar à porta de casa, descobrisse que a rua tinha desaparecido, que o terreno terminava no seu limiar, ou que um abismo se abria diante dele. Então, uma surpresa clara e violenta ocorreria na consciência do leitor. Surpresa porquê? Pelo facto de ela não estar lá. Mas não concordamos que não tinha considerado a sua existência anteriormente, não a tinha questionado? Esta surpresa revela até que ponto a existência da rua desempenhou um papel no seu estado anterior; ou seja, até que ponto o leitor teve em conta a rua, mesmo sem estar a pensar nela, e precisamente porque não estava a pensar nela.

O psicólogo dir-nos-á que se trata de um pensamento habitual, e que por isso não temos consciência dele, ou utilizará a hipótese do subconsciente, etc. Tudo isto, que é altamente questionável, é completamente irrelevante para a nossa discussão. O que sempre se manterá é que aquilo que influenciou decisivamente o nosso comportamento, como se fosse a sua premissa básica, não foi considerado por nós de forma consciente e separada. Estava dentro de nós, mas não conscientemente, e sim como uma implicação latente da nossa consciência ou pensamento. Bem, eu chamo a esta forma de algo intervir nas nossas vidas sem que tenhamos consciência disso "levá-lo em consideração". E essa forma é característica das nossas crenças efetivas.

O intelectualismo, como já disse, inverte o valor dos termos. Ora o significado desta acusação é claro. De facto, o intelectualismo tendia a considerar o que há de mais consciente como o mais eficiente nas nossas vidas. Agora vemos que a verdade é o oposto. A maior eficácia no nosso comportamento reside nas implicações latentes da nossa atividade intelectual, em tudo aquilo em que nos apoiamos e, precisamente por nos apoiarmos nisso, não refletimos sobre.

Será já evidente o enorme erro de tentar compreender a vida de uma pessoa ou de uma época através da sua ideologia — isto é, através dos seus pensamentos específicos — em vez de mergulhar mais fundo, na camada das suas crenças mais ou menos implícitas, nas coisas em que se apoiavam? Fazê-lo, avaliar as coisas em que nos apoiamos, seria verdadeiramente construir a história, iluminar a vida desde os seus alicerces.»