Um dos maiores expoentes do modernismo em Portugal

A Confissão de Lúcio

«Só posso viver nos grandes meios. Quero tanto ao progresso, à civilização, ao movimento citadino, à atividade febril contemporânea!", Porque, no fundo, eu amo muito a vida. Sou todo de incoerências. Vivo desolado, abatido, parado de energia, e admiro a vida, entanto como nunca ninguém a admirou!

"Europa! Europa! Encapela-te dentro de mim, alastra-me da tua vibração, unge-me da minha época!...

"Lançar pontes! lançar pontes! silvar estradas férreas! erguer torres de aço!...

E o seu delírio prosseguia através de imagens bizarras, destrambelhadas ideias.»

 

Considerada a mais importante obra de Mário de Sá-Carneiro, "A Confissão de Lúcio" tem como base o triângulo amoroso entre Lúcio, o seu amigo Ricardo de Loureiro e a mulher deste, Marta. Nesta novela escrita em forma de policial, o narrador, Lúcio, confessa a sua inocência, depois de ter passado dez anos na prisão acusado da morte de Ricardo, ocorrida em circunstâncias misteriosas e da qual a única testemunha é o próprio Lúcio. Obra vanguardista, nela se encontram algumas das obsessões do autor: o amor pervertido, o suicídio, o sentimento de incompletude e de alienação do eu que lhe conferiram uma aura de poeta maldito. 

Um dos maiores expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais conceituados membros da “Geração d’Orpheu”, Mário de Sá-Carneiro nasceu a 19 de Maio de 1890, em Lisboa. Começou a escrever poesia aos 12 anos, já traduzia Victor Hugo aos 15 e, com 16 anos, Goethe e Schiller. Em 1911 matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, não chegando a concluir o primeiro ano. Prosseguiu os estudos superiores na Sorbonne, em Paris, mas deixou de frequentar as aulas, levando uma vida boémia para combater o seu desespero e frustração.

Conheceu em 1912 aquele que viria a tornar-se o seu melhor amigo, Fernando Pessoa. Apesar de socialmente inadaptado e psicologicamente instável, foi neste ambiente boémio que, entre 1912 e 1916, compôs grande parte da sua obra poética. Com Fernando Pessoa e Almada Negreiros, integrou o primeiro grupo modernista português, responsável pela edição da revista literária Orpheu, considerada um verdadeiro escândalo literário na época. Este evento é ainda hoje reconhecido como um dos marcos da história da literatura portuguesa, nomeadamente pela introdução do modernismo em Portugal.