"Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade"

Jorge de Sena (2 de Novembro de 1919 - 4 de Junho de 1978), um dos grandes poetas da língua portuguesa, sempre lutou pela liberdade. Ter passado pela Armada em plena Guerra Civil Espanhola, e durante a fascização do Estado Novo, foi para ele uma experiência traumática da sua adolescência, que transporia para diversos poemas e ficções.

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Por Victorcouto - Obra do próprio, Domínio público, Hiperligação

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena in "A Cor da Liberdade", publicado na obra "Fidelidade" (1958). 

Neste poema, escrito durante o exílio interior do autor, o verso funciona como um refrão e um manifesto. Sena exprime uma profunda ligação à sua terra natal, mas revolta-se contra a opressão e a censura. A poesia reflecte a recusa em conformar-se com um país onde a liberdade é negada. O verso "Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade" tornou-se ainda mais famoso quando Jorge de Sena o utilizou como mote na "Cantiga de Abril", um poema escrito logo após a Revolução de 25 de Abril de 1974 e dedicado às Forças Armadas e ao Povo de Portugal. Nesta cantiga, o autor responde directamente à pergunta que dá título aos versos, associando a liberdade às cores da nova democracia:

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


26-28(?)/4/1974. Obras de Jorge de Sena.

Jorge de Sena deixou-nos uma obra vasta e multifacetada, com mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças, mais de 30 contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio, à história e à teoria literária e cultural, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas.