«Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»
in “Livro do Desassossego”, por Bernardo Soares,
ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, págs. 16-17'
Por Almada Negreiros - A.A.V.V. (Coordenação: José de Monterroso Teixeira) – Almada: a cena do corpo. Lisboa:
Centro Cultural de Belém, 1994. ISBN 972-959-38-0-9 (scanner próprio), Conteúdo restrito, Hiperligação
