Em 1865, Charles Lutwidge Dodgson, um matemático de Oxford e diácono anglicano, publicou uma história sobre uma menina que cai numa toca de coelho. Assim, o mundo conheceu Alice e o seu criador pseudónimo, Lewis Carroll. Todos os anos, no dia 4 de Julho, leitores de todo o mundo celebram o Dia de Alice no País das Maravilhas, uma homenagem a uma das histórias mais imaginativas alguma vez escritas.
Por Charles Dodgson (alias Lewis Carroll), published by MacMillan and Co. - page (dead link) archived copy of the page, image (dead link) archived copy of the image (cropped from original), Domínio público, Hiperligação
Publicado numa época em que a literatura infantil tinha geralmente como objectivo ensinar lições morais, o livro deixou inicialmente perplexos os críticos, que não conseguiam apreciar o absurdo que tanto cativava os seus jovens leitores. Mas Carroll compreendia como funcionava a mente das crianças, e a forma como subvertia a lógica apelava ao seu sentido de ridículo. Nos enigmas e poemas — como “Como faz o pequeno crocodilo?” e “Estás velho, Padre William” (ambos paródias de poemas didáticos conhecidos) — atingiu níveis ainda mais absurdos. A obra atraiu seguidores e levou a uma sequela, Alice Através do Espelho e o Que Alice Lá Encontrou (datada de 1872, mas publicada em Dezembro de 1871). No final do século XIX, Alice (considerando os dois volumes em conjunto) tornara-se o livro infantil mais popular de Inglaterra e, em mais duas décadas, figurava entre os livros de histórias mais populares do mundo. Inspirou inúmeros filmes, peças de teatro e bailados, bem como inúmeros trabalhos de análise académica.
Análises académicas de Alice no País das Maravilhas, revelam um texto rico e multifacetado que transcende a sua classificação como literatura infantil tradicional do século XIX. A história tem sido analisada sob dimensões filosóficas, psicológicas e socioculturais, tratando o País das Maravilhas como um espaço surreal e simbólico de desconstrução da realidade.
Como matemático e lógico, Carroll permeou a narrativa de paradoxos matemáticos, absurdos e subversão linguística. O romance critica o raciocínio dedutivo rígido e o pensamento racional, expondo os absurdos que surgem quando a lógica é aplicada cegamente, sem bom senso. Diálogos com personagens como o Chapeleiro Louco desmantelam a comunicação tradicional, realçando a natureza arbitrária e construída da linguagem e a sua frágil ligação com a realidade absoluta.
As críticas psicológicas interpretam a viagem de Alice como uma estrutura para a formação da identidade e o conflito cognitivo interno. As mudanças drásticas e incontroláveis no tamanho físico de Alice servem de metáforas para as ansiedades, a dissonância cognitiva e a autopercepção mutável vividas durante a adolescência. Alguns teóricos da literatura defendem que a ruptura da realidade que Alice experiencia espelha os sintomas do trauma, centrando-se nos processos desconstrutivos e reconstrutivos pelos quais a mente passa para dar sentido a um mundo fragmentado.
Numa perspectiva histórica, os habitantes excêntricos do País das Maravilhas funcionam como uma sátira mordaz das normas sociais vitorianas, da etiqueta rígida, das estruturas de classe e da natureza didática dos livros infantis da era vitoriana. As figuras adultas que Alice encontra representam a convencionalidade opressiva e regida por regras da sociedade vitoriana. Através dos olhos de uma criança, o País das Maravilhas expõe a arbitrariedade do mundo adulto.
