Mestre do pensamento complexo

 

Por Fronteiras do Pensamento - Edgar Morin no Fronteiras do Pensamento São Paulo 2011, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=74320532

Edgar Morin continua a fazer-nos pensar para nos ajudar a questionar as nossas certezas. Desenvolvimento é a palavra-chave que percorreu todas as ideologias políticas, mas nunca foi pensada em profundidade. Actualmente, ocorrem três revoluções no campo do conhecimento, particularmente na ciência. Darão lugar a uma nova análise do desenvolvimento:

- A ciência costumava pensar que poderia enunciar certezas: agora sabemos que é preciso encontrar espaço para a incerteza;

- A ciência pensava que poderia tratar os problemas separadamente uns dos outros, mas tudo que está ligado a um contexto e a um sistema, não pode mais ser isolado;

- Admitia-se que bastava uma única lógica racional para compreender a realidade. A racionalidade abriu-se agora a novas lógicas.

Estas revoluções lançaram dúvidas sobre o pressuposto de que o progresso só tem consequências positivas e conduz inevitavelmente ao desenvolvimento da humanidade. Sabemos agora que a tecnologia é ambivalente e que tanto as pessoas quanto a natureza precisam ser protegidas dos seus efeitos negativos.

Podemos ver que as questões económicas não podem ser dissociadas das questões sociais, humanas e culturais. Enquanto a ligação entre factores económicos e não económicos foi ocultada, tudo o que não pode ser quantificado foi negligenciado. Modelos económicos intelectualmente satisfatórios foram construídos, mas não eram capazes de levar em conta a realidade. Até agora não levamos em conta os efeitos destrutivos do desenvolvimento técnico e económico no nosso património cultural e na natureza. Estes efeitos destrutivos explicam por que o fundamentalismo está a ganhar muitos devotos e a encontrar líderes entre os intelectuais que possuem as ferramentas do conhecimento moderno, mas ficaram desapontados com ele.

É assim o fim da concepção eufórica de desenvolvimento, que favoreceu a ideia de um modelo único aplicável a todas as situações.

A noção de desenvolvimento deve ser recolocada num conjunto que engloba natureza, história, sociedade e cultura. Mas ainda nos falta a consciência de um destino terrestre comum. Devemos promover o crescimento de uma espécie de solidariedade humana baseada no vínculo uterino entre as pessoas, por exemplo, a ideia de uma terra-pátria. Como disse o poeta Machado, "Caminhante, não há caminho; faz-se caminho ao andar". Precisamos buscar um novo caminho, tentando inspirar-nos no pensamento de Heráclito: “Se não se espera, não se encontra o inesperado”.

Edgar Morin propõe sete tipos de reformas inseparáveis - reforma económica, social, política, ética, do conhecimento, da educação e da maneira de viver - para se explorar vias de se alcançar um novo tipo de sociedade.

Segundo Morin, temos um destino comum, que deveria unir-nos, tornar-nos solidários e transformar-nos em cidadãos do planeta Terra. Pela primeira vez na história da humanidade, existe a possibilidade de uma unidade - uma unidade na diversidade, uma unidade pacífica - ou seja, a possibilidade de realizar verdadeiramente uma nova etapa no devir da humanidade.

Morin também propõe o trabalho de reunir os principais tipos de reformas, ou seja, reunir as iniciativas de toda espécie, mediante as quais se criam solidariedades no seu estado inicial, isoladas, separadas, compartimentadas; e depois religá-las, formulando vias para mostrar que cada uma dessas vias já tem potencial para se criar um novo modelo de viver.

in UNESCO