Em "Emigrantes", Ferreira de Castro (24 de Maio de 1898 - 29 de Junho de 1974) conta-nos a história de um português, de Oliveira de Azeméis, que emigra para o Brasil com o objectivo de enriquecer. Com 40 anos, tem mulher e filha adulta, uma casa e uma porção de terreno. Insatisfeito com o que possui e cobiçando umas terras vizinhas, decide partir para o Brasil:
«Mas para Iá do muro, os olhos de Manuel da Bouça já não podiam ver, com alegria, os campos que se estendiam, planos, bem regados, até próximo da igreja velha. Possuí-los, ser seu dono, semear e colher o milho que aloirava aos primeiros calores fortes e no Inverno, a erva dos Iameiros, que formava tapetes sempre húmidos, era o seu único sonho, a grande aspiração da sua vida. Disso dependiam todos os projectos que ele formara, desde o casamento de Deolinda, não com um valdevinos sem eira nem beira, mas com um homem digno e de teres e haveres, até a velhice tranquila, numa casa grande, de telha francesa, lá em cima, nos Salgueiros - uma casa em cuja salgadeira metesse dois porcos alentejanos.» (pp. 2 1-22).
«Concluída a sacha, pôs a enxada de pé, apoiou o cotovelo na extremidade e entregou-se de novo à obsessão. Os olhos acarinhavam, pousando aqui e ali, os campos próximos que o Caima banhava ‒ os seus futuros campos! Embora o sol abandonasse já os cumes da Felgueira, por toda a parte que a vista abrangia se labutava ainda. Labutava-se desde que os galos cantavam e assim se ia, de dorso curvado, trabalhando a terra insaciável, pela noite dentro. Era um esforço constante, uma regueira de suor, entre a malga de caldo e um copo de vinho, quando o lavrador tinha espírito generoso, porque havia quem passasse todo o dia apenas com as migas matinais.» (p. 37)
O romance, publicado pela primeira vez em Julho de 1928, é a maior obra literária e testemunho humano sobre o drama da emigração portuguesa. Uma obra composta por um relato flagrante da sordidez do sistema económico de desigualdades e injustiças.
