“Kafkiano”

Escultura de Jaroslav Rona

Franz Kafka nasceu a 3 de Julho de 1924. No bairro judeu de Praga, onde passou a maior parte da sua vida, uma escultura de Jaroslav Rona é um memorial ao autor influente… Ou aos homens gigantes, sem cabeça, sem mãos e bem vestidos em todos os lugares. Um Kafka, em miniatura, encontra-se empoleirado nos ombros de um fato vazio e sinistro que parece caminhar em direcção a nós.

Em 1991, o New York Times conseguiu que o biógrafo de Kafka, Frederick R. Karl, fornecesse uma definição de “Kafkiano”:

"É quando se entra num mundo surreal no qual todos os seus padrões de controlo, todos os seus planos, toda a maneira como configurou o seu próprio comportamento, começam a desintegrar-se. Quando se encontra contra uma força que não se presta a si mesma, à maneira como se percebe o mundo. O indivíduo não desiste, não se deita e morre. O que faz é lutar contra isso, com tudo o que tem. Mas é claro que não tem hipótese. Isso é kafkiano."

O que Kafka descreveu em "O Julgamento" e "O Castelo", talvez seja semelhante ao conceito moderno, e muito ridicularizado, de um "estado profundo": uma casta de burocratas cinzentos que se auto perpetua, uma sociedade secreta sem objectivos, ou ideologia, claros, excepto o bem-estar dos seus membros. As visões dos actuais teóricos da conspiração são, de certa forma, próximas da visão do mundo “Kafkiano”: o que o poder faz é incompreensível para eles, então estão dispostos a aceitar as explicações mais “selvagens”.

Na actualidade, o poder real, seja em democracias ou autocracias, é barulhento e cheio de autojustificações. Tem tendência a usar argumentos simples, é “apelativo” e feito para os noticiários, e é coberto por uma “camada brilhante” de dinheiro; ao contrário do "poder judiciário" monótono, mas inacessível, subtilmente malicioso, mas, às vezes, inexplicavelmente brutal, de "O Julgamento". As regras de hoje, até nos podem parecer complicadas - mas o mundo de "O Julgamento" nem tem mesmo regras claras para procedimentos legais; no sentido de que se assemelha à Oceania de Orwell, onde as leis não podiam ser violadas porque não havia leis.

O que torna Kafka tão relevante, para que o seu nome continue a surgir de cada vez que um sistema parece injusto ou com regras ilógicas? Talvez seja a aceitação passiva, universal, da injustiça avassaladora e opacidade total. Em “O Julgamento”, todos jogam de acordo com as regras que assumem, não por aquelas que foram estabelecidas.

A parte verdadeiramente kafkiana de viver numa sociedade disfuncional é a sensação de que o protesto é estúpido, fútil, ou ambos. Reconhecer que o confronto directo é ineficaz, a fuga é impraticável e que, em última análise, o sistema tem as suas razões. Julgamentos injustos e regras injustas, só são possíveis porque tentamos explicá-los, e viver com eles, para não insistirmos na resistência.

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