O teórico mais importante do Neorrealismo

poesia incompleta

Amontoam-se as telas e os anos
secam as tintas nestas tábuas tortas
colecciono avidamente os desenganos
esperando em vão a paz das horas mortas

Não são palavras só tremer de dor
julgar que estala o coração não mais poder
Agora aqui a sós com estas cores sem cor
nas mãos o sinto bem sem o saber dizer

Em vão rasgo papéis Montes de telas ato-as
ao fogo atiro a ambição e o instrumento
Mas modelam-se estátuas
teimosamente só com o pensamento

De que serve ser velho ou dizer sê-lo?
Mais e mais tudo te dói tudo te chama
coração imbecil ridículo que inflama
o mais longínquo apelo

Ah poder desistir mas desistir enfim ficar
sem mágoa para sempre só presente
não mais querer nem intervir nem desejar
ser indiferente indiferente Indiferente
pensar nas flores nos presos nas crianças
nos que sonham construir as madrugadas
nos que julgam vencer nos já sem esperanças
ver passar os namorados de mãos dadas
ver os barcos no rio e tudo o que vai neles
sem querer ser nenhum deles

Vem velhice autêntica tranquila
apagar este ardor sem destino este florir de antenas
para o perigo em carne viva que me falta e a que sempre falto

deixa-me olhar a vida só que tenho em volta sem senti-la muito

E ensina-me a viver enfim sem sobressalto apenas


"Memória dum Pintor Desconhecido" in "Poesia Incompleta"

Nascido a 16 de Julho de 1916, o poeta, romancista, ensaísta, professor e pintor Mário Dionísio é autor de uma obra multifacetada e considerado o teórico mais importante do Neorrealismo.

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