«Nesse tempo, no tempo em que fomos, sem dúvida, imaginávamo-nos na boca do mundo. Estuário larguíssimo, Tejo, boca beijando o mar, boca de fomes oceânicas, boca de verbo propagado. Boca de saída, boca de entrada. Busca de paladares exóticos, de especiarias, de comidas diferentes e mais gostosas.
Do ser colectivo, da fonte imaginada, nasciam os descobrimentos. Cronicámo-nos, pregámo-nos, cantámo-nos. Não havia voluntarismo, henriquinos ou outros, nem cupidez de comerciantes ou de clérigos, que nos obrigassem. Nada faria um povo canalizar-se para a mesma garganta, a mesma boca, a mesma avidez, senão uma imaginação comum, comummente empolgada por relatos, contos e recontos, por pequenos voos ficcionais de historiadores convictos.
Desse ser conjunto e imaginário nasceram os brasis e as áfricas, as selvas, os ouros e pedrarias, as febres, os açucares, as árvores das patacas. A emigração persistente, o sonho no além, o vazio no aqui. A nostalgia do nunca avistado, do perfil humano que transforma em oráculo a costa portuguesa, visão possível só de cartógrafo ou pássaro.»
A existência de um país - ou de uma nação, ou de uma comunidade - exige sempre a existência de um imaginário colectivo. De um "nós", sujeito plural que legitimamente se enuncie. Existe um imaginário europeu? Ou um imaginário diferente em cada país? Somos cidadãos europeus? Qual o "nós" que legitima o enunciado deste cidadão imaginário?
Nas relações de poder entre os países têm papel determinante as imagens que os respectivos cidadãos têm do seu próprio país, e dos países dos outros. Nós (portugueses) temos (ainda?) uma imagem deprimida de nós próprios, o que nos torna particularmente vulneráveis. Sem uma tomada de consciência a este respeito, nenhuma política (de defesa?) da nossa língua e da nossa cultura poderá ser eficaz.
Qual a "pátria" que habita o imaginário dos "emigrantes" portugueses, ou "lusodescendentes", no seu confronto com a orgulhosa sociedade francesa? Qual a pátria deles que os franceses imaginam, e desconhecem?
Partindo de uma experiência concreta, são estes os principais temas e interrogações colocados no livro “Um Imaginário Europeu” de Maria Isabel Barreno, escritora, ensaísta, artista plástica e jornalista, nascida a 10 de Julho de 1939.
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