“Bichos”

Bichos

"São horas de te receber no portaló da minha pequena Arca de Noé", escreve Miguel Torga ao «Querido leitor» no prefácio de «Bichos». Aceitei o convite à leitura destes contos do poeta, do homem-bicho e do bicho-homem, assistindo à sua passagem pela vida e a sua inevitável caminhada para a morte…

«Cega-Rega», que denuncia a transformação inevitável e sofrida a que os seres vivos estão sujeitos. «Bambo», o sapo que expressa sabedoria e uma serena contemplação do mundo. «Farrusco», o melro brejeiro de gargalhada irónica, que convoca toda a natureza para celebrar a vida. «Nero», um conto de morte, mas também de uma vida exemplar e prolongada, por Jau, o filho. «Mago», o gato que troca a liberdade pelo bem-estar, assistindo, passivamente, à sua própria decadência sem forças para lutar.

«Miura», o touro que luta com o homem, em nome da sua dignidade, disposto a matar, e por fim a morrer. «Vicente», o corvo, que “escolhera a liberdade” e, ao contrário de «Mago», encarava de frente a degradação que recusara. «Morgado», o macho que vê que o dono, para quem sempre trabalhara, cruelmente “Salvava a vida com a vida dele”. «Tenório», o galo que assiste ao seu trágico envelhecimento e se apercebe como a velha facilmente o substitui. «Ladino», o pardal que preferia a protecção do ninho às vicissitudes do ar.

«Sr. Nicolau», mórbido coleccionador, apaixonado de insectos mortos. «Ramiro», dono de um alma “muda como um túmulo” e que, em jeito animalesco, mata o homem que lhe sacrificou a cordeira. «Madalena», nome bíblico, de pecadora, que responsabiliza, indirectamente, os tabus sociais pelo seu pecado. E «Jesus», em que a voz da verdade é posta na boca de uma criança.

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