Byung-Chul Han discorre a respeito da mudança da sociedade disciplinar de Foucault, para a sociedade psicopolítica neoliberalista, regida pelo capitalismo imaterial, os big data e as médias digitais.
Han descreve que hoje acreditamos que não somos mais sujeitos submissos, mas sim projectos livres, que se reinventam constantemente. A passagem do sujeito (submisso) ao projecto, é percebida através do sentimento de liberdade, que ideologicamente, suprime a figura de coerção externa, pelas coerções internas.
No entanto, há uma contradição entre o discurso e a prática, pois vivemos um momento particular em que a liberdade é quem, no fundo, provoca as coerções. Isto faz com que os indivíduos internalizem obrigações de desempenho e optimização.
Para atingir tais resultados, o mundo do trabalho promoveu uma transformação importante, tornando o trabalhador, empreendedor de si. De facto, fazer com que o sujeito passasse a ver-se como empresa de si, como empreendedor, foi uma revolução ímpar, pois encaminhou os sujeitos para a busca incessante do aumento de produtividade.
Hoje, cada trabalhador, é servo e senhor de si ao mesmo tempo, transferindo a luta de classes para uma luta interior. Isto fez com que ruísse a clássica divisão marxista entre a classe trabalhadora e a classe detentora dos meios de produção. Na produção imaterial de hoje, cada um possui os próprios meios de produção, esboçando-se livremente, como autoprodutor e explorador de si, ilimitadamente.
Esta autoexploração, a qual o neoliberalismo atingiu, e que afecta todas as classes, é completamente estranha a Marx. Ela torna a revolução social proposta por ele, impossível, principalmente por causa do isolamento do sujeito do desempenho, que é consequência do processo de individualização e que inviabiliza a formação de um “Nós” político, que é capaz de um agir comum.
Esta individualização neoliberalista, fez com que os sujeitos não questionassem mais o sistema produtivo, mas sim, passassem a considerar a si mesmos, responsáveis pelo seu próprio fracasso. Dirigindo então, a agressividade para dentro, para o “eu”, favorecendo o desenvolvimento de diversas psicopatologias da nossa era.
Ademais, o neoliberalismo também transformou o cidadão em consumidor, que já não consome apenas produtos, mas consome principalmente informações. Han, relembra que no início a rede digital prometia liberdade ilimitada, o que logo se mostrou uma completa ilusão, pois a liberdade e a comunicação, transformaram-se em ferramentas de monitorização e controle na nossa sociedade.
A transparência também exigida na rede digital, instrumentalizou as informações, geradas pelos próprios usuários, para fins de indicadores de produtividade. O que na prática actuou e actua, como uma exigência de aumento constante do desempenho para o sujeito, que têm como projecto, o aprimoramento incessante de si.
Assim, hoje, os sujeitos expõem-se voluntariamente, sem avaliar as consequências, sem qualquer coerção. Fazem-no em nome da liberdade. Mas, este cenário constitui-se como sendo uma crise da liberdade, pois a protecção de dados tornou-se obsoleta, na medida em que eles são comprados e utilizados activamente por corporações.
Caminhamos desta forma, sob o jugo da psicopolítica digital, onde o poder põe de lado toda a negatividade. Não tenta vergar as vontades, privar a liberdade ou utilizar a violência, mas sim, tomar posse da liberdade, apoderando-se dela, para atingir os seus fins.
A psicopolítica também substituiu a utilização da estatística (comummente empregada na biopolítica) pelos big data, que são os dados gerados por todos os usuários da rede, a partir dos quais, se traçam psicogramas individuais e colectivos, a fim de explorar a psique inconsciente dos sujeitos.
Os smartphones substituíram as câmaras de torturas, e o Big Brother passou a ter um rosto mais amável, sendo assim muito mais eficiente. Na nossa realidade, comunicação e controlo passaram a coincidir mutuamente.
A persuasão psicopolítica além disso, não se conteve apenas no campo comercial e laboral, extrapolou-os influenciando também a vida política. Com a gigantesca quantidade de dados colectados, comprados e conectados, os candidatos passaram a ter o conhecimento sobre os perfis eleitorais, adquirindo uma visão da vida privada e da psique dos eleitores, permitindo-lhes influenciar o eleitorado de forma individualizada, personalizada.
Como alternativa ao poder psicopolítico, Han resgata o conceito de idiotismo. Descreve que a filosofia desde o princípio estava ligada ao mesmo, pois ser idiota significa produzir um novo pensamento, uma nova linguagem.
Os loucos e idiotas, para o autor, desapareceram da nossa sociedade diante da conexão digital, da comunicação total e da coerção por conformidade, pois há uma violência do consenso, que reprime o idiotismo. O mesmo, representa uma prática de liberdade diante da coerção da comunicação, e do inferno do mesmo. O idiota é o desligado, o desconectado, o desinformado, o herético. Originalmente heresia significa escolha, portanto, o idiota é como o herege, uma figura de resistência frente á violência do consenso.
Ser idiota é comunicar através do não comunicável, recolher-se em silêncio, e em quietude, de onde é possível dizer as coisas que realmente merecem ser ditas. Significa inaugurar um espaço, uma distância necessária para se preparar uma fala distinta, não só o comunicar ininterrupto.
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