Na Arte como na Vida

Santa Paz Doméstica, Domesticada?

A 26 de Agosto de 1973 era implementado pelo Congresso dos Estados Unidos o Dia Internacional da Igualdade Feminina. A data tem como intuito celebrar e trazer visibilidade às questões de equidade de gênero, e a importância do papel da mulher na sociedade.

Se a representação da figura feminina, em comparação à masculina, ao longo dos séculos, predomina na pintura realizada por artistas homens, estes sempre ocuparam um lugar de centralidade e visibilidade na produção artística.

Ao longo da história, as mulheres artistas foram frequentemente esquecidas, marginalizadas ou omitidas das narrativas históricas da arte, levando à falta de reconhecimento das suas contribuições em comparação com os seus homólogos masculinos. Ainda hoje, podemos observar a existência de notórias discrepâncias entre o reconhecimento profissional a que são votados os artistas mediante o género. O reconhecimento da mulher enquanto força motora da sociedade, enquanto artista, é um processo lento que, ainda hoje, se encontra em movimento e evolução e que tem vindo a sofrer, ao longo dos tempos, alguns avanços e recuos.

Três anos após o fim do regime ditatorial, que ocorreu em 1974, Ana Vieira realizou a instalação "Santa Paz Doméstica, Domesticada?" (1977) que consiste na representação de um espaço doméstico composto por objetos comuns à casa, como mesa de apoio, jarro com flores de plástico, produtos de limpeza e objetos com alusão ao estereótipo da mulher dona de casa, como um cesto de costura e malhas, dedal, verniz vermelho para as unhas, espelho circular com um coração pintado a batom, moldura de plástico com reprodução de uma estrela masculina de cinema e exemplares de revistas femininas. E por fim, um guião com o seguinte roteiro:

«Uma mulher está de costas para nós junto a uma varanda e é vista através de uma cortina de renda. Acena com a mão. Em seguida entra em casa, olha com atenção para tudo. Anima-se para começar o trabalho caseiro. Já tem um avental posto, acrescenta um lenço na cabeça e agarra vários utensílios e objectos para iniciar a limpeza. Detergente, ajax, espanador, pano de pó, vassoura, etc. Limpa o pó a vários bibelots, mira-os, acaricia-os. A seguir vai limpar os vidros das janelas, depois o chão; esfrega com uma escova, usa sabão, detergente, envolve-se neles, acaricia-se com eles, esfrega-se. Solta o cabelo, tira peças de roupa, transpira.

Entretanto ouve o rádio que dá uma música ligeira e anúncios para donas-de-casa. A certa altura a rádio pára para dar uma notícia sensacional: “um cientista descobriu um robot capaz de fazer o trabalho de casa”. A mulher fica petrificada. Quando o marido regressa a casa, ela está sentada, com as mãos cruzadas, com um olhar ausente e nem o vê.»

Lisboa, 1977

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