A fotografia sempre foi escrita e linguagem, tal como é invariavelmente arte e documento. A suposta mudança na essência da imagem fotográfica, que passaria de "isto foi" para "eu estava lá", não é assim tanta, dado que a subjectividade, o "para mim", sempre esteve incluído no processo fotográfico.
O que mudou não foi a captura, mas a sociedade. O novo público já não acredita na possibilidade de uma fotografia não mediatizada, que emerja directamente da realidade e deva ser percebida como uma janela aberta para o seu referente. Hoje, assumimos que toda a captura é sempre uma ficção. A mudança de estatuto da nossa relação com a imagem fotográfica, iniciada pela primeira incursão do avanço tecnológico, torna-se definitiva quando entrou em cena uma “segunda revolução digital”. Esta transformação deve-se ao desenvolvimento geral da internet e, especificamente, ao surgimento e ao aumento do uso das redes sociais. A imagem deixa de ser um instrumento de memória para se constituir como uma das principais formas de comunicação e de relacionamento interpessoal.
É certo que a maioria das fotos tiradas nos primórdios da fotografia pretendiam servir de janela para outras realidades e que a dificuldade de um procedimento quase alquímico tornava a imagem acessível apenas a alguns, mas assim que se iniciou o processo de democratização da fotografia, iniciou-se a sua utilização como elemento auto-definidor e social.
O ideal da fotografia continua a referir-se àquele momento em que a câmara regista a realidade, mas outros elementos sempre desempenharam um papel na construção deste tipo de imagens, factores que se afirmam cada vez mais nos dias de hoje. Em suma, as alterações nos elementos externos à imagem fotográfica (a tecnologia, com o seu desenvolvimento da fotografia, o modelo de relacionamento interpessoal) acabam por afectar a estrutura básica do gesto fotográfico, pois modificam elementos que, embora sejam apenas uma fração do elemento fotográfico, representam uma mudança radical na imagem.
É o caso da inteligência artificial (IA) ao transformar a fotografia, quando oferece ferramentas para aprimorar a qualidade das imagens, automatizar tarefas e até mesmo gerar novas imagens. Uma tecnologia que está presente tanto na captura quanto na pós-produção, com câmaras que ajustam configurações automaticamente e softwares que corrigem imperfeições e aplicam efeitos. Não sem desafios e considerações.
No campo da ética e autenticidade, o uso de IA levanta questões sobre a autenticidade das imagens e o potencial para manipulação. A automação de tarefas tem impacto no trabalho dos fotógrafos pois pode levar à substituição de trabalhos manuais, exigindo que se adaptem e aprendam a usar a IA como ferramenta. No campo da qualidade e limitações, a IA ainda não consegue reproduzir com perfeição certos aspectos da realidade, como texturas e sombras complexas, e algumas imagens geradas podem ser facilmente identificadas como artificiais.
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