Vivemos numa “cultura do espectáculo”, em que a televisão e a internet (redes sociais) são veículos mediáticos através dos quais o político pode construir a sua imagem apelando à atenção do público, e não mais por meio da sua habilidade na arte de falar. Da política do texto, as investidas são transferidas para a política de imagens. No entanto, na Roma antiga a palavra era o instrumento por excelência. E Cícero, nascido neste dia, 106 a.C., foi considerado um dos seus maiores oradores.
«Uma arte qualquer, pelo menos, mesmo quando não se pratique, pode ser considerada como ciência; mas a virtude afirma-se por completo na prática, e o seu melhor uso consiste em governar a República e converter em obras as palavras que se ouvem nas escolas.»
Cícero - As Catilinárias, Lisboa, Verbo, 1974.
Cícero clarifica a sua compreensão acerca da relação entre conhecimento e acção política, criticando aqueles que, ao invés de buscar explicações para questões do mundo político, como a situação desarmónica entre o povo e o senado que então vivenciava, se inquietavam em saber assuntos relativos ao universo. Refere-se à virtude como tópos obrigatório para o governo saudável da República, associando este aspecto da moral romana à esfera cívica.
Se, por um lado, Cícero ascendeu politicamente por meio do uso da oratória, por outro podemos visualizar nos seus discursos os recursos retóricos utilizados para conquistar o público, argumentando em proveito dos seus anseios particulares, ainda que construa um discurso em que a defesa da res publica sirva de argumento justificador.
Em “O Orador e Retórica a Herênio”, Cícero revela os “ardis” do mundo da oratória: a ethicon, cujo significado está associado à forma de ser, aos costumes e à conduta geral de uma pessoa e, por isso, atrai o público com o seu tom agradável e afável; e a patheticon, mediante a qual se excita os corações humanos, visto produzir um discurso veemente e impetuoso.
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