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Rodavam, rodavam os pares. Foi há vinte anos, e ainda não era hábito os pares dançarem desenlaçados uns diante dos outros como outrora os espadachins. Pelo contrário, enlaçados e rodando, todo o espaço que sobejava da longa mesa foi ocupado com a trajectória das ancas, embora sobejassem mulheres apoiadas na grade, porque não se estava em tempo de paz completa. Ainda era de tarde, ainda o Sol estava bem amarelo e suspenso por cima do Índico, a cidade da Beira, prostrada pelo calor à borda dos cais, era tão amarela quanto o ananás e a papaia. A noiva suspirou não de cansaço ou de sono mas de deslumbramento, depois desse suspiro, o Comandante da Região Aérea começou a falar bem alto, como se esperava que falasse.
«África é amarela, minha senhora» — disse o Comandante, apertando pelo carpo a mão de Evita.
«As pessoas têm de África ideias loucas. As pessoas pensam, minha senhora, que África é uma floresta virgem, impenetrável, onde um leão come um preto, um preto come um rato assado, o rato come as colheitas verdes, e tudo é verde e preto. Mas é falso, minha senhora, África, como terá oportunidade de ver, é amarela. Amarela-clara, da cor do whisky!»
Rodavam, rodavam sempre, ela de braços muito abertos, estendidos, levantados, para alcançar o alto da farda onde deveria poisar de leve os dedos da mão, em forma de vespa. Aliás, a noiva, sempre de braços abertos como antigamente, quando se fazia adeus a um transatlântico, dançou com um outro coronel, depois com dois majores, e em seguida com três capitães, rindo imenso. Quando teve pausa, nem se lembrava qual deles lhe tinha dito:
«Ainda é cedo para ter verificado, mas verá que esta é uma das poucas regiões ideais do Globo! Admire a paisagem, e verá que para ser perfeita, só faltam uns quantos arranha-céus junto à costa. Temos tudo do século dezoito menos o hediondo fisiocratismo, tudo do século dezanove à excepção da libertação dos escravos, e tudo do século vinte à excepção do televisor, esse veneno em forma de écran. Com uns vinte arranha-céus, a costa seria perfeita!»
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Romance da escritora portuguesa Lídia Jorge publicado em 1988.
