“Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim”

Serigrafia de Júlio Pomar
Serigrafia de Júlio Pomar "Fernando Pessoa Sentado à Mesa da Brasileira"

Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.

Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 97

O poema, um dos mais marcantes de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, é uma profunda reflexão sobre a passagem do tempo, desilusões e a mudança da identidade. O eu-lírico olha para quem foi no passado como se fosse outra pessoa, distanciando-se das suas próprias memórias. O que está por vir deixa de importar, focando-se num presente por vezes amargurado mas de aceitação. O verso "Caí pela escada abaixo subitamente" metaforiza o ridículo e as desilusões da vida, como falhar no amor ou na aceitação social.

A serigrafia "Fernando Pessoa Sentado à Mesa da Brasileira" do Mestre Júlio Pomar é uma das homenagens gráficas mais icónicas ao poeta.

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