Será “A Vila”, o filme de M. Night Shyamalan, uma alegoria do mal, ou apenas social? A união social é mais forte perante uma ameaça comum?
Amanhã, 21 de Setembro, celebra-se mais um Dia Internacional da Paz. William James, considerado o "pai" da psicologia norte-americana, no ensaio "The Moral Equivalent of War", escrito em 1906 e voltando a ser publicado em 1910 na edição inaugural da "Peace and Conflict: Journal of Peace Psychology" (evidenciando a relevância dada ao autor no seio da Psicologia da Paz), surpreendeu a comunidade académica ao referir-se aos atrativos da guerra.
De acordo com o autor, a guerra oferece aos indivíduos a oportunidade de expressar virtudes como a lealdade, a honra, ou a disciplina. Junta as pessoas, não só os que realmente vão para o campo de batalha, mas toda a comunidade. Trás um sentimento de coesão, com objetivos comuns e inspira o cidadão (não só os soldados) a comportarem-se com honra e altruísmo, em prol de um bem maior. Consequentemente, para acabar com a guerra, seria necessário as sociedades encontrarem equivalentes morais alternativos para a expressão dessas virtudes.
“A Vila”, o filme de M. Night Shyamalan, situa-se na Pensilvânia e está isolada do resto do mundo, rodeada por florestas povoadas por monstros perigosos, a que os habitantes chamam “Aqueles de Quem Não Falamos”. A maior parte dos habitantes é feliz com a vida que lhe garante o acordo estabelecido com essas criaturas: os habitantes não entram na floresta e as criaturas não entram no povoado.
O conflito é declarado quando o jovem Lucius Hunt quer sair da vila em busca de novos medicamentos, quebrando o pacto. Lucius e Ivy Walker, a filha cega do chefe da comunidade, decidem casar-se. Esse propósito suscita a inveja do “tolo” da aldeia, que esfaqueia Lucius deixando-o à beira da morte e causando uma infecção cujo tratamento requer medicamentos vindos do mundo exterior.
O pai de Ivy revela à filha o segredo da comunidade: os monstros não existem e o ano em que vivem não é 1897. Os aldeões mais velhos faziam parte de um grupo de apoio a vítimas de crimes no século XX que decidiu passar a viver completamente à margem do seu tempo; o pai de Walker era um homem de negócios milionário, o que lhe permitira comprar aquelas terras, que seriam depois declaradas “reserva protegida”, rodeadas por um fosso enorme e vigiadas por numerosos guardas; além disso, funcionários governamentais foram “comprados”, assegurando que as rotas aéreas não sobrevoariam o lugar, e do lado de dentro da vila, a história dos monstros foi inventada com a finalidade de garantir que ninguém teria a ideia de sair do povoado. Com a bênção do pai, Ivy aventura-se no mundo exterior, encontra um guarda amigável que lhe dá alguns medicamentos e regressa a fim de salvar a vida do noivo. No fim do filme, os anciãos da vila decidem continuar a viver à parte: a morte do “tolo” será apresentada aos não iniciados no segredo como prova da existência dos monstros e confirmação do mito fundador da comunidade. A lógica sacrificial é assim reafirmada como condição de existência da comunidade, como o seu laço secreto.
O mal não é simplesmente excluído desta comunidade utópica fechada – é também transformado numa ameaça mítica com a qual a comunidade estabelece uma trégua temporária. Uma das cenas mostra um exercício de treino: Walker toca um sino, que é o sinal para a retirada rápida dos aldeões, que correm para os abrigos subterrâneos onde se devem refugiar em caso de ataque das criaturas.
É como se a comunidade autêntica só fosse possível em condições de ameaça permanente, num constante estado de emergência. Essa ameaça é orquestrada pelo círculo reservado, os “anciãos” da própria comunidade, para impedir que os jovens não iniciados saiam da vila e assumam o risco de atravessar a floresta a caminho das cidades decadentes. O mal faz parte do próprio círculo reservado: é imaginado pelos seus membros.
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