“Tanta gente, Mariana”

Tanta gente, Mariana

«(...) De vez em quando sinto medo, mas o quarto protege-me. Quando há pouco fechei a porta, senti que ela fazia um ruído diferente, que não ficou em suspenso como habitualmente, mas que estacou no silêncio como um ponto final. O tempo também parou. Os ponteiros do relógio continuam a andar, mas as horas são iguais. Deixaram de existir as que eram feitas para comer e para dormir, as horas de falar com os outros, as de trabalhar – onde isso vai! – e as que eram unicamente minhas. Agora todas me pertencem, não dou por elas. Só há noite e dia, mas a manhã deixou de ser princípio e de limar as arestas às coisas. Tudo parou. Até os carros que passam na rua e as vozes que vêm lá de fora, porque já não entram em mim.(...)»

Considerada uma das escritoras mais importantes da literatura portuguesa do século XX, Maria Judite de Carvalho nasceu neste dia, em 1921. “Tanta gente, Mariana”, a sua obra de revelação, exprime vivências reais. É uma história que questiona a própria vida e a realidade. Nas palavras de Urbano Tavares Rodrigues, "Tanta Gente, Mariana foi uma espécie de bomba, sem excessos verbais, que caiu sobre o marasmo da sociedade portuguesa do final dos anos cinquenta, com uma ironia dolorosa, por vezes ácida, denunciando as frustrações e contidas mágoas da mulher portuguesa entregue aos caprichos masculinos e aos «brandos costumes» da hipócrita moral salazarista."

Ler mais »»»

Mostrar mais