Direito a Saber

Afirma-se que vivemos na “Era da Informação”, que vivemos na “Era do Conhecimento”, no entanto poderá muito bem ser o contrário, a “Era da Ignorância”. O contraste existente entre o que sabemos com o que podemos e, acima de tudo, com o que deveríamos saber, é tão grande, que seria melhor chamar-lhe a “Era do Desconhecimento”.

No passado, os seres humanos pouco sabiam, mas esse “pouco” era praticamente tudo o que poderiam e deveriam saber. Tinham um conhecimento em primeira mão, imediato e comprovado. No presente, temos o privilégio de viver rodeados por um conjunto de coisas que “se” sabe, que “alguém” sabe, e que, teoricamente, estão ao nosso alcance, mas nós, na realidade, não sabemos.

Por exemplo, o progresso da ciência e da tecnologia não torna mais fácil a compreensão do Mundo, mas sim mais difícil, visto que o “saber” torna a informação mais abundante e complexa. Num Mundo complexo, aumentam os instrumentos de informação, as informações e os processos – dá-se a racionalidade por suposta. A complexidade do sistema leva à inevitabilidade de aceitar sem entender.

Não menos exemplar, a Democracia que nos governa. Que falta nos faz uma verdadeira Democracia… Uma Democracia que dê primazia ao “saber” do ser humano muito antes de nos manifestarmos com uma cruz no papel, de levantar o braço, ou de escrevermos discursos nas redes sociais. Uma Democracia sem medo de informar, de forma eficaz e verdadeira, para que pudéssemos afirmar que os resultados eleitorais são fruto da reflexão com base no conhecimento, e não de emoções momentâneas, circunstanciais e, pior de tudo, manipuladas.

Por fim, mas não por último; porque pensar é preciso; a informação. Ou, melhor escrevendo, o excesso da mesma. A especialização e a fragmentação do conhecimento têm produzido um aumento de informação que a compreensão, da maioria dos seres humanos, não consegue acompanhar. Mais, a informação e a comunicação massivas informam sem qualquer tipo de orientação, ou explicação de maior. É notório que os “detentores do conhecimento” nos “atolam” com informação sem a menor intenção de repassá-la de forma correta ou simples.

O que fazemos, quando não sabemos o que devemos fazer? Acumulamos dados, damos demasiadas explicações, assumimos competências a mais, etc. Acumular informação é uma forma de nos livrarmos da tarefa incómoda de pensar, uma vez que a instantaneidade, com que essa mesma informação nos é repassada, nos impede de ter tempo para refletir na mesma.

Paradoxalmente, esta submissão ao “excesso de informação”, liberta-nos. Podermos usar mais do que compreendemos, significa não ter de pensar e decidir a cada passo. Há quem defenda que o progresso da civilização não é impulsionado por aquilo que os seres humanos pensam, mas por aquilo que os salva ou economiza de pensar.

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