«A desobediência à Circular 14
No final do conflito mundial, Aristides reagiu ao castigo que lhe fora imposto pelo regime ditatorial, e escreveu à Assembleia Nacional, composta por deputados que pertenciam à União Nacional, explicando que as ordens assinadas por Salazar a que tinha desobedecido estavam diretamente em contradição com a Constituição de 1933, e configuravam uma violação do texto fundamental. O espírito desta reação estava de acordo com a manifestação de junho de 1940, na qual, confrontado com a força esmagadora do invasor nazi, declarou: "Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar."
Esta frase foi vista e considerada pelo regime como uma inequívoca acusação a Salazar. Para Aristides, a ordem expressa na Circular 14, não permitindo que os cônsules de carreira passassem vistos de entrada em Portugal a refugiados, era uma ordem colaboracionista: "Participar em chacinas não era apenas praticá-las diretamente, bastava apenas impedir que as potenciais vítimas tivessem uma porta de saída do inferno em que se estava a tornar a Europa ocupada pelas forças nazis."
Foi a primeira vez (e talvez a única) em que um cidadão nacional, funcionário do Estado, falando de direitos humanos num regime totalitário, denuncia aos ‘representantes da Nação’ a violação da Lei Fundamental por parte do chefe do governo. Foi a 10 de dezembro de 1945 que a reclamação de Aristides foi apresentada na Assembleia Nacional. Nem um único dos 120 deputados teve a coragem e a dignidade de responder… Exatamente três anos depois, a 10 de dezembro de 1948, as Nações Unidas publicavam, em Nova Iorque, a Declaração Universal dos Direitos do Homem.»
A história do cônsul Aristides de Sousa Mendes, e de como desafiou as ordens de Salazar para salvar as vidas de 30.000 refugiados durante a II Guerra Mundial, é hoje um legado de coragem e nobreza que constitui um orgulho para todos os portugueses.
Mas quem era Aristides de Sousa Mendes (19 de Julho de 1885 - 3 de Abril de 1954)? Por trás da figura heroica esconde-se um homem complexo, profundamente íntegro e religioso, devoto à família e ao país, e que foi forçado a fazer uma escolha terrível entre a sua consciência e o dever profissional, sabendo que as consequências para si seriam implacáveis.
Com recurso a um extenso arquivo fotográfico e documental, em grande parte inédito, o seu neto, António Moncada S. Mendes, desvenda o lado pessoal do cônsul e da sua família, lançando assim uma nova luz sobre a figura de um diplomata que se sacrificou para salvar a vida de muitos inocentes.
